Post-doom metal, a forma moderna de executar música arrastada

Se você percorre a jornada mais tradicional da música pesada terá uma certa dificuldade pra se entranhar nesta nova caminhada que a SUD te embarca. Já faz um tempo que algumas mentes resolveram explorar coisas um tanto avessas ao comum no metal, desde os 80 com os Godflesh, que neste caso, preferi usar por se aproximar do que será elencado aqui, além do mais, Justin Broadrick (fundador dos Godflesh) foi um dos baluartes para o chamado post-doom quando iniciou seu projeto Jesu em 2004. Post-doom seria mais um experimento qualquer como os casos isolados que ocorreram nos 90 e se estenderam timidamente pelos 2000, é exatamente este o ponto em que o post-doom sai fora da curva. Seus primeiros passos ocorreram na 1ª metade dos 2000, e até o momento vem ganhando cada vez mais espaço no underground. O post-rock surgiu em algum momento dos anos 90, carregando características peculiares que vão ao encontro da atmosfera já experimentada pelas bandas de doom metal como, riffs repetitivos, atmosferas melódicas e densas, um certo ar de melancolia, algo do rock progressivo, no geral, uma musicalidade mais rica e experimental, porém, a grande maioria das bandas são instrumentais, algo não tão comum no doom metal. No meio disso tudo, quem acabou caindo no gosto da maioria das bandas novatas foi “a forma sludge” de fazer música arrastada, a sujeira e os vocais odiosos acabaram encontrando um colo nesse tipo de som experimental, talvez, diretamente ligados ao que os Neurosis passaram a experimentar a partir do Souls at Zero.

Uma banda sueca que causou um certo alvoroço no início dos 2000 foi os Cult of Luna, adeptos do lado mais estridente dos riffs, da sujeira sem fim, naquele tempo surge o termo post-hardcore, algo como bandas de hardcore desaceleradas e minimalistas. O debut dos CoL é carregado por uma atmosfera sombria e gélida, um auto-intitulado lançado em 2001. Talvez, enquadrar os CoL no termo post-doom seja um erro, mas o fato é, eles serviram de influência pras bandas que vieram após, e tudo indica que continuarão influenciando os mais novos.

Seguindo por esse caminho, acabamos topando com os (já extintos) estadunidenses Isis, que se enveredou por esse caminho no fim dos 90, a banda encerrou as atividades em 2018, deixou 5 discos mais uma caralhada de EPs e lives, agora se chama Celestial, título do disco de estreia dos Isis (2000).

Os Minsk, também pertencentes do leque de bandas dos 2000, aplicaram doses do que foi rotulado como “tribal” em sua sonoridade, uma timbragem seca de bateria (que pode ser considerada uma marca registrada de muitas bandas desse meio).

A Storm of Light parece ter sido criada com uma intenção já bem estabelecida, é uma banda que você pode notar facilmente a inclinação ao doom metal (como base) aliada ao experimentalismo do post-rock (a atmosfera). Criada por Josh Graham em 2007, Josh atuou como visual media dos Neurosis de 2000 a 2012, é provável que ele tenha captado muita coisa deles e aplicou em sua empreitada sonora, além de cantar, Josh cuida da guitarra e teclado. Até o presente momento são 5 discos lançados.

Antes de criar os Storm of Light, Josh participou do único disco dos Battle of Mice, numa pegada mais suja e ardida, com uma mina chamada Julie Christmas na vocal, a voz dela vai da mocinha pop tipo a Spears ao extremo de estérico.

Uns franceses (feios pra caralho) foram um pouco além das bandas já citadas, nascidos na 2ª metade dos 2000, o debut dos Year of no Light mergulha no lado mais meloso, aquele rostinho urbanístico bem típico daqueles tempos, onde Agalloch e Alcest eram as fofoletes do underground descolado e sofisticado. O YonL não eram muito de escrever letras, após o debut (2006) se voltaram ao totalmente instrumental.

Rumo ao atual, rimando com Portugal, terra dos Sinistro, uma banda que começou explorando um som instrumental em seu debut auto-intitulado (2012), até que em 2013 eles colaboram com uma cantora chamada Patrícia Andrade, gravam duas faixas com ela cantando, o que fecha uma parceria de banda. Isso resultou mais 2 discos (2016/2018), com letras em português, além da dificuldade de encaixar as letras, a voz de Patrícia é aguda e infantilizada pra proposta (eu não sei a porra do termo técnico pra voz dessa mina, na moral), no fim, a banda conseguiu adaptar seu som ao que a voz de Patrícia exige, isso acabou caracterizando de forma única o som dos Sinistro, além de toda densidade e sebosidade, carrega uma beleza noturna de bar boêmio, uma grande sacada é a voz doce e angelical dela banhada por uma sonoridade lerda, porém, caótica e massiva. É uma banda que tem de tudo para despontar no underground da música pesada moderna.

A banda conseguiu assinar com a Season of Mist (responsável por 2 dos 3 discos deles), o investimento também foi pra produção audio-visual, no clipe mais recente, a banda parece buscar falar sobre causas bem atuais da pós-modernidade como a questão LGBT. As letras deles no geral, são de total apelo poético, beiram o surrealismo e abstrato.

Pra encerrar, mais uma banda fronteada por mina, os californianos King Woman, apadrinhados pela Relapse Records, também espargindo uma atmsofera fortemente post-moderna em suas letras e no trato com audio-visual, inclusive, vale destacar o sagaz clipe para a faixa Deny, onde mostra um fanático cristão em conflito com a sua sexualidade. A voz de Kristina Esfandiari é densa até o talo, lembra algo do misto de vozes das 3 gurias dos Subrosa e da Chelsea Wolfe. A banda debutou em 2017.


Como você deve ter notado, eu não me atentei a mergulhar profundamente na discografia das bandas abordadas como era padrão, não pretendo mais seguir este formato, esboçar alguma coisa relevante sobre a banda e um disco acho que já é o suficiente, aos que ficarem curiosos que vasculhem mais coisas na web sobre o que gostaram. Como abordo ramificações do mais profundo underground, automaticamente estou em contato com um seleto grupo de pessoas, um grupo pequeno, aos que são antigos por aqui, é provável que já pegaram a manha do funcionamento, aos que chegaram agora, vocês tem a escolha de começar pelo começo ou se prender ao que a atualidade lhes proveram, a escolha é de vocês.


 

G.Z/SUD

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