Funeral Doom Metal, animando velórios desde 1990 – Parte II

Que me perdoe o amiguinho que ovula apreciando o seu amargo funeralzinho, também aqueles que se esforçam em ser pior ao apreciar bandas horrorosas de DSBM e afins, sim, eu sei, sou indigno de contemplar a sutiliza mórbida, a beleza da agonia e o prazer do desespero de tais obras, até porquê não sou mais um adolescente punheteiro cheio de espinhas horrendas na face imberbe que posa pra fotos “niilistas” no espelho do banheiro, por favor, me perdoem, pois continuarei tratando este assunto da forma mais escrachada possível, além do mais, uma vez alguém me disse que o funeral doom é o black metal do doom (o mais extremo doom metal), meu deus do céu, se assim for, tenho que trabalhar forte na alopração. Hail Satan! 666!

Assistam Lord of Chaos, escrevi o trecho acima baseado na obra e nos moleques ridículos que embarcam precocemente nessa deep web da música sombria e se tornam seres altamente bizonhos, como eram os filhinhos de papis e mamis que ciraram o Mayhem, Burzum e toda aquela merda que aconteceu num dos países mais ricos e bom de se viver do mundo, vai entender esses comédias… Ainda sobre o filme, se você for um true de 40 anos, tá proibidíssimo de assistir, mas tá liberado xingar o filme e fazer propaganda grátis nas suas redes sociais… haha seu otário!


Falando em toda essa merda norueguesa do euronimo e vargolino e dead, em 91, numa cidade chamada Drammen, uns garotos se reuniram pra fazer um som que vinha engatinhando na época, mas o tempo foi deixando a coisa mais feia e rancorosa no que acabou se tornando (também) uma das bandas presentes no panteão do extremo arrasto, no mais, não poderiam ter escolhido um batismo melhor do que (apenas) Funeral. Uma banda abusada, além de toda aquela atmosfera sombria e gelada embebecida no lado mais feio dos Paradise Lost, praticavam música bem extensas pro que era comum, tanto que a segunda demo ultrapassa uma hora com apenas 5 faixas. Abaixo, uma da demo de estreia e outra da segunda – já com um cheirinho funeralzera.

Mas a debutagem só foi rolar em 95, o Tragedies com suas 5 faixas em quase uma hora. Ao contrário da feiura típica do funeral doom, aquele som quebrado e as vezes torto, os Funeral investiram na “beleza” do lamento, aquela voz “lullabica” feminina, um artifício que foi utilizado em larga escala nas bandas choronas dos 90, de fato, é um disco indispensável aos que apreciam essa forma de arrasto sonoro.

A coisa meio que não vingou, então o baterista e fundador Anders Eek criou uma nova banda em 96 chamada Fallen. A empreitada rendeu apenas um disco em 2004, um play bem polido que carrega todo aquele azedume das guitarras nórdicas, de Empyrium a Bathory, passando por Shape of Despair e Katatonia antigo, acho que por aí vai…

Aliás, interessante o fato de um baterista ser o mentor numa banda de funeralzão, já que é um dos sub-estilos mais complicados pra quem é do batuque, bateria é um instrumento de pressão, de gingado, no mínimo 100 por hora, tocar a 10 é bem treta, tem que amar mesmo, tiro o chapéu, na moral. Tive que foder a linha do tempo pra falar dos Fallen, mas 3 anos antes do único disco, os Funeral lançaram a 2ª obra, o disco marca uma transição do som deles, caminhando rumo ao que era mais acessível no mundo do doom chorão e meloso, faixas com mais de 10 minutos foram abolidas!

Enfim a banda mergulha no lado mais “gótico” do metal mela-bunda no From These Wounds, lançado em dezembro de 2006, desta vez, Eek e sua trupe (aliás, passou uma caralhada de gente nesta banda) parece ter mergulhado no som dos Novembers Doom.

Após isso foram mais 3 discos até 2012, aí é problema seu ir atrás das obras caso não conheça.


1996 – Hong Kong. Pastel de flango meus queridos! Imagine você aí torturando sua guitarra e seus vizinhos, sonhando em pelo menos gravar uma demo com a sua forma de fazer funeral doom, aí você descobre que uns caras de Hong FUCKING Kong saíram na sua frente, das duas uma; ou você desiste de vez dessa ideia de gerico ou reza pra deus e diz a si mesmo – “eu também posso”. Amém irmão. Pois é, apesar de 96 configurar o início dos Hyponic, só em 2001 que o debut nasceu, muito mais death/doom do que qualquer coisa.

Em 2005 é aflorado o lado mais “slow music playing”, aí o chicote estrala bem devagarzinho, parada é macabra mesmo, timbragem ensaboada com a lama do sludge.

Os ching-ling só reaparecem em 2016, o fogo no cu é tão grande que experimentaram novamente, mais moderno, fervido no caldeirão do post-rock, ainda sim, tem aquele charme da feiura que a banda tinha.


1998 – Alemanha. A medida certa entre a feiura e a “beleza” do som lamentoso é o que você vai topar ao ouvir o som dos Worship. Após anos resumidos em demos e splits, o disco de estreia ascendeu ao mundo dos vivos em 2007, um título muito carismático por sinal – “Dooom” (doom? sim! com 3 ‘o’s – mais genial que isso impossível!). A demo de estreia abaixo.

Agora o debut…

E fica a dica, se você tem/tiver uma banda, não se arrisque a coverizar um som qual você não é capaz de interpretar duma forma decente, olha a cagada que fizeram com um clássico dos Solitude Aeturnus kkkkkkkkkkkkkk

Vem ser feliz, sinta essa vergonha com a gente, ouça a faixa original –

Calma que ainda não acabou, fique aí com o 2º disco deles, lançado em 2012 e aguarde por mais obras futuras, porque a banda segue ativa.


1998 – EUA. Uma banda que já nem existe há mais de uma década, os Asunder. Tudo começa no início dos 90, quando aquilo que seria o escopo da banda se aventurava pelo lado mais hardcore do agito, várias empreitadas com algumas bandas, até que Geoff (guitarra) e Dino (bateria) convidam o guitarrista Seth Baker pra mandar um som calcado no death metal sueco e no doom metal,  logo menos, Britt Hallett assume o baixo e assim nasce de vez a banda. O disco de estreia (2004) contaria com mais um guitarrista e um violoncelista, seguindo a sagrada tradição, são apenas 4 faixas em quase uma hora.

O 2º e último disco ganha vida 2 anos depois, marcando o fim da banda. Works… conta com apenas duas faixas, uma de 22 e outra de 55 minutos. O grande lance da banda é o desbravamento pelo sludge (herança dos tempos do hardcore), além do mais, Dino se criou numa banda chamada Dystopia, muito aclamada no profundo underground do sludge e crust. Mas além dessa pegada sludge, doses de post-rock e de sonoridades macias cujo som dos Pallbearer vem a mente (devem ter bebido muito da fonte dos Asunder), eles tinham mais lenha pra queimar e sonoridades atípicas pra explorar…

Fica aqui a demo de estreia dos Dystopia, lançada em 92.


1998 – Finlândia. Chegamos numa (se não for a) das bandas mais docinho de coco do rolê, os Shape of Despair. O que formaria os SoD foi criado em 1995, quando a banda se chamava Raven, como você pode notar na promo abaixo, toda melosidade e forte investimento em atmosferas frias e desoladoras já eram trabalhadas.

Então, com uma musicalidade estabelecida, um rumo a ser tomado, sem vacilação, em 2000 acontece a debutagem da banda. Pode-se dizer que o Shape of… é um tanto animadinho pro que manda a cartilha e pro que se tornaria a banda. Uma boa sacada foi a entrada de Natalie Koskinen, sua voz doce e angelical aplicou um grande charme no som, é preciso destacar o trampo do Jarno Salomaa, ele assumiu uma das guitarras, é o responsável por criar todas as atmosferas das músicas e é um dos fundadores. No fim das contas, a faixa que eu mais gosto do debut é a instrumental Night’s Dew, mas a parte boa é que eu sou o de menos por aqui.

A ousadia dos caras é assombrosa, conseguiram a proeza de lançar o 2º disco um ano depois do debut, isso soa como heresia no mundo slow motion do funeral doom! Illusion’s Play se distância do anterior, cai de cabeça no mais profundo roque lento atmosférico, te mergulha numa infinidade de sentimentos, cores tétricas, tormentos e traumas, mas tudo embalado numa sinfonia caprichada, sim, eu gosto deste disco, ouvi muito quando mais novo e as vezes paro pra ouvir, num dia frio, chuvoso, pra dormir e sonhar com os anjos. Uma regravação da lindinha Night’s Drew encerra o disco.

Sabendo que tinham alcançado a sua marca registrada, eles não ficaram experimentando, buscando algo mais, a não ser lapidagens na produção, timbragens novas, todo o resto do esqueleto foi mantido, o que resultou mais 2 discos (2004 e 2015). Em 2016, uma demo foi lançada, o material foi gravado em 98, quando a banda ainda se chamava Raven, a sonoridade possui fortes elementos do black metal sinfônico típico da Escandinávia.

Você pode conferir os materiais citados no bandcamp da banda, pra encerrar, um EP de apenas duas faixas em INCRÍVEIS 12 minutos (são uns hereges assumidos). Também vale destacar que todos os membros da banda estiveram/estão metidos em outras bandas/projetos, tanto na pegada desacelerada quanto em outros gêneros metálicos, é tanta coisa que só vou deixar aqui a nova empreitada da Natalie, ela canta nos Collapse of Light que é um projeto português de ex-membros dos Before the Rain.


1998 – França. Temos aqui uma one-man-band onde Cédric Seyssiecq cuida dos instrumentos, ele convidou algumas mulheres pra cantar em seus discos. Como manda a cartilha, Grey November só debutou uma década após sua criação, o som é bem sintético, o que é comum quando apenas um cara cuida dos instrumentos, além de algumas limitações, a bateria virtual é uma pedra no sapato, o som flerta com música gótica e darkwave. O selo russo GSP fez um compilado contendo os 2 discos e as duas demos, lançou o material em 2016. Toda a obra está disponível no bandcamp pro seu deleite de zé velório gótico.

Em 2018, o 3º disco ganhou vida, melhor produzido e pensado, também via GSP.


1999 – Bélgica. Falando em one-man-band… pode-se dizer que Stijn van Cauter é um cara “bem sucedido” se o assunto é perseverança e lançamento de discos, foram 9 até agora, poderia ter sido mais se ele não tivesse entrado em hiato de 2011 a 2016. Ele também experimentou dosar seu som com darkwave, além de algo de dark ambient e folk, mas de uma forma feia e amadora. Stijn foi mais herege ainda ao lançar um disco por ano, mas tá perdoado por ser normal isso em banda de um homem só, tem figura que lança mais que um por ano. Deixo o primeiro disco e o mais recente abaixo, quem quiser se aventurar melhor na obra do cara, só cair de cabeça no bandcamp dele, eu to de boaça.


1999 – Finlândia. Mais uma banda que não existe mais. My Shameful é um projeto de Sami Rautio, ele atuou como one-man-band gravando o 1º disco, convidou uns poucos músicos nos seus outros discos, 6 no total, entre 2003 e 2014. Seu som é torto, com uma timbragem típica do death/doom dos 90. No fim das contas, o som do cara lembra muita coisa dos 90 e 2000, mas eu não vou alongar muito, deixo aqui o disco The Return to Nothing, lançado em 2006.


1999 – Itália. Bom, não é nenhuma novidade o quanto os italianos gostam duns lance obscuro, feio e torto, o trio Void of Silance investiu nessas coisas, também não é possível dizer que eles afundaram bem um pé no funeral doom, tanto que a banda nem ousa se auto-intitular dessa forma, mesmo assim, fica aí o som doido e interessante deles. Os 5 discos lançados até 2018 estão disponíveis no bandcamp deles.


No próximo artigo será iniciado o mergulho nos anos 2000, a década que ocorreu um “boom” de bandas nessa praia de som, algumas mais criativas, mais experimentais, mais famosas. Até lá.


 

G.Z/SUD

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