Experimentalismos e modernismos, o lado torto do Doom Metal – Parte I

Indo cada vez mais fundo, bem distante da superfície, ao âmago da música desacelerada, desde muito tempo foi possível se deparar com experimentalismos e modernismos distintos embarcando na nave do arrasto, se voltarmos nos 80, temos o Born Too Late dos Vitus, toda aquela melancolia, toda aquela atmosfera pra baixo ainda não era nada comum. O que dizer da maior parte da obra do Paul Chain? O debut dos Trouble trazia um peso afiado, duas guitarras cortantes, uma bateria metálica e um vocal praticamente setentista, logo em seguida viria o som épico dos Candlemass, alvoroçando ferozmente um mar repleto de nutrientes desaguando no explosivamente criativo anos 90. Sim amiguinhos, de certa forma, o doom metal jamais deixou de ser alvo de experimentalismos, não a toa, se fundiu com uma porrada de outros gêneros metálicos ou não. O fato de tio Iommi, que em função da sua “deficiência”, soltou as cordas da guitarra baixando a afinação não deixa de ser um experimentalismo. Nada tão moderno fez tanto sucesso na música lenta como as bandas dos 90, já bem distante da raiz de tudo, agora vemos o lado mais tradicional ganhar espaço na mídia mundial, o revival de riffs forjados ainda nos 70, o obscuro dourado brilhando lentamente. Mas distante disso, algumas bandas optaram por seguir um caminho mais torto que o comum, bandas que aplicaram roque/metal progressivo, o torto e borbulhante avant-garde, passagens mais sutis que receberam a nomenclatura de “atmospheric doom”, até experimentos com música folk estão documentados, mesmo que seja um gênero conhecido pela sua animação, diferente do neofolk. Na atualidade vemos o sludge como um grande difusor do lado torto aliado ao arrasto, sem dúvidas o lado mais experimental atual. Lentamente o chamado post-doom vai agregando apreciadores, na maioria das vezes, uma galera bem distante das raízes do gênero, como se fosse o “new metal” do doom metal. Percebam a beleza disso tudo, algo tão underground e ao mesmo tempo tão vivo, cheio de desdobramentos, mas é claro, só percebe isso aquele que se dispõe a ir além mais do óbvio. É por isso que a SUD te embarca em uma nova viagem rumo aos recantos mais profundos da arte do arrasto.

Se você costuma ler o que eu escrevo, acompanha as postagens, já topou com muitas bandas tortas por aqui, as coisas simplesmente se emaranham na teia do roque lerdo, e as vezes é difícil desvencilhar uma coisa da outra, mas eu não pretendo ficar gastando dedo digitando repetecos, focarei em bandas inéditas. Quem não topou bandas tortas citadas anteriormente é só fazer uma boa viagem pelas dezenas de artigos da aba MATÉRIAS.

Em 1986, na Carolina do Norte nasceu uma banda chamada Confessor. A intensão era clara, tocar doom metal duma forma descaradamente estadunidense, aplicando muita técnica e precisão, influenciados pelas progressões sonoras, mas além de todo o lado sonoricamente torto, o vocalista Scott Jeffreys se destacava pelo seu timbre agudo, azedo, beirando o histérico, berros lamentosos. Após 3 demos entre 87 e 90, a (bem famosa na época) Erache Records apadrinha o debut da banda, por ser um selo inglês, logo o disco invadiu o mundo da juventude adepta do lado mais lerdo, inclusive, numa famosa foto dos Paradise Lost, o imberbe Holmes ostenta uma peita da banda, que na real é uma estampa da capa de um EP lançado em 1992. Uma outra foto do mesmo lote estampou a contra capa do debut dos Paradise Lost.

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Mesmo com duas guitarras e um baixo afiado, toda a atenção do disco é atraída pra voz e pra bateria de Steve Shelton, o desgraçado mostra que domou muito bem seu cavalo de lata selvagem.

A Erache lança um 4 way split (uma pequena comp) de 4 bandas do selo, incluem uma faixa dos Confessor, numa tiragem de 5000 cópias em dezembro de 91. O material acompanhava uma edição da revista alemã Rock Hard.

Numa entrevista ao site Doom-metal.com Steve fala sobre o fim da banda em 94, o quanto estavam desapontados com a Erache, percebendo que o som deles remava contra a maré, era experimental de mais pra época em que a melancolia no death/doom era o atrativo, além disso, a banda parecia não curtir muito a ideia de ser rotulada doom metal. Mas no início dos 2000, eles retornam com pique pra produzir mais um disco. Um EP foi lançado em 2004, o que rendeu um contrato com o selo francês Season of Mist, responsável pelo 2º disco lançado em 2005. De fato, eles não fugiram do seu cerne, o som continua torto, evidenciando algo dos idos do grunge, do roque estadunidense em si.

Deixo aqui o link da entrevista com Steve realizada em outubro de 2018 – http://doom-metal.com/interviews.php?entry=1608&fbclid=IwAR2Y0nR6VlGJpwQ9RHWILnwDkE8Vtcq8K5otZqrGF1GJBsYW9Mvtg_xEyMQ


Início dos anos 90, Holanda, um guitarrista chamado Tom Palms consegue juntar uns caras pra iniciar a jornada dos Phlebotomized. Juntando estilhaços do engatinhante death/doom com passagens tortas, uma atmosfera típica das bandas que caminham pela música avant-garde.

No EP de 94 é notável a busca por um polimento na sonoridade.

O lado experimental ganha mais espaço no debut lançado em 94, diferente do comum naqueles tempos, o uso do teclado e até violino não serviram pra aplicar alguma sensação melancólica, eles focavam o lado mais torto do que podia ser obscuro. Detalhe pra capa genialmente horrorosa.

Além de ser o ano em que o 2º disco foi lançado, 97 também marca o desativamento da banda. Contando apenas com Tom da formação original, em 2013 a banda renasce pra fazer alguns shows e relançar os 2 discos e os 2 EPs. Solidificada uma nova formação, é gravado um novo disco que foi lançado em dezembro de 2018, o material mostra uma banda distante dos 90, mais moderna, mas a essência torta e própria permanece firme e forte no som.


Uma passagem rápida pela Itália pra tratar do único disco dos Ras Algethi. Após uma demo de 3 faixas lançada em 93, o quinteto de Milão passou a se dedicar ao seu disco de estreia, o Oneiricon – The White Hypnotic – lançado em 95. Quando se trata de banda italiana no arrasto, as chances de ser algo macabro e obscuro são grandes, no caso dos RA, não foi diferente. As atmosfera lúgubres formam todo o diferencial desta banda, melodiosa, melancólica e sombria. De fato, o som não é tão torto, mas com certeza fugia dos padrões da época, talvez até serviu de influência pras bandas de funeral doom que vieram pela frente.

Eu não faço ideia do que aconteceu pro encerramento tão precoce da banda, mas sei o que aconteceu com os membros. A principal empreitada de 3 deles (Mauro, e os irmãos Mateo e Luca) aproveitaram o fulgor da verve “atmosférica” e deram início ao projeto Canaan, um som que soa como música gótica desacelerada, carregada de romantismo.

Após sair dos Canaan em 2005, os irmãos Risi iniciam o Neronoia, que é uma espécie de Canaan mais torto e obscuro.

Silvio e Huldus seguiram pelo caminho do arrasto metalizado fundando em 2008 a Enoch, é difícil explicar o que diabos essa banda toca, veja as tags no bandcamp, ouça o som e tire suas conclusões.

A debutagem aconteceu em 2002, Huldus grava o 2º disco e pula fora, Silvio grava um single em 2008 e é a sua vez de deixar a banda.


Uma verdadeira colcha de retalhos se estende pelo único full dos peruanos Kranium, setentismos, sabatismos, pegada death/doom, música andina, popular, folclórica, instrumentos incaicos. A banda foi formada na capital peruana em 1984, debutando só em 99.

Em 2010 um split com a também peruana Black Angel é lançado, o material traz uma uma regravação duma faixa gravada em 84 num ensaio. A banda segue ativa fazendo shows no país deles, com uma pegada mais atual e instrumentos incaicos reduzidos.

Letras contestadoras anti-cristãs, o início precário, selvagem e raivoso.

Atualidade –


Agora imagine o encontro do Bathory com Candlemass, o que poderia sair disso? Foi o que um chileno radicado na Suécia nos fez o favor de responder. Luis Beethoven Galvez é o nome da figura, todo o escopo do som de seu projeto Tristitia fora criado por ele em 1992, no decorrer da jornada ele contaria com a presença de várias outras figuras do submundo sueco. Na demo de 93 se nota um direcionamento mais “extremo”, Thomas Karlsson era parceiro do Luis numa banda chamada Pagan Rites (fundou a Devil Lee Rot em 2001), além de sua típica voz ríspida ele passou a experimentar uma voz operística, o que acabou caindo como uma luva no debut – One with Darkness (95).

Aproveitando o embalo do selo francês Holy Records, um ano após é lançado o 2º disco, completamente calcado na receita do anterior.

Luis sofre uma baixa pesada após o 2º disco, Thomas pede pra sair. Lá se vão 4 anos, tempo suficiente pra amadurecer um disco novo, Luis convida um cara chamado Rickard Bengtsson (Last Tribe) pra assumir a voz, nada comparado com Thomas, o disco parece uma obra daquele “período obscuro” dos Candlemass.

Luis ainda teima mais um pouco, o que se torna o 4º disco da banda, lançado em 2002. Ele aposta em um novo vocalista – Stefan Persson, com uma voz rasgada e jubilosa, o disco mostra uma sonoridade mais estridente e tristonha, obviamente carregada pelo lado épico. Posso até arriscar em dizer que o disco passou raspando num funeralzão, mórbido e denso pra caralho. Um disco bem triste pra marcar o fim da jornada de Luis.


Mais uma banda que capengou legal até conseguir lançar o 1º full, os estadunidenses While Heaven Wept. Criada por 2 garotos em 89, após trapalhadas com um nome que se adequasse à proposta (até Penance foi um batismo, logo desistiram pela trupe ex-Dream Death), chegam ao atual, segundo Tom Phillips (um dos pirralhos fundadores) o nome vem duma carta em que sua namorada termina com ele, tal fato seria de grande importância para as composições e letras da banda. WHW é uma banda triste que aplica riffs forjados na música erudita, progressões rítmicas, além de pequenas incursões de power metal americano (não o alegre power metal europeu –  como Tom se refere hahaha). Apesar de Brendam Galvan estar junto de Tom na criação da banda, ele durou pouco tempo. Tom canelou bastante em busca de membros qualificados a seguir na empreitada, a coisa só foi melhorar a partir de 98. Um ano em que enfim debutam, um disco produzido por eles mesmos, mas os 2 membros que acompanharam Tom até ali o abandonam. Foi então que 3 pessoas se juntaram à ele e estão presentes na banda até hoje; Jim Hunter (baixo/voz), Scott Loose (guitarra) e Michelle Loose-Schrotz (teclados). O disco de estreia traduz os acontecimentos amorosos de Tom, segundo ele, se não tivesse notado que seu lugar era na música, que seus amigos tivessem o apoiado no que podiam, ele nem estaria mais aqui, mais um que desandou por dor de corno e por ter uma vida de merda, bem vindo ao clube.

A face sonora atual da banda passou a tomar forma no disco seguinte, que maturou por 5 anos, não tão denso e tristonho, mais épico e digamos, alegrinho. Coverizaram a arrastadaça Epistole No. 81 presente no Ancient Dreams dos Candlemass, uma versão bem massa, diga-se de passagem.

Tom sente a necessidade de um vocalista pra banda, então Rain Irving ocupa o posto e grava o 3º disco, um som que beira as bandas mais melódicas nórdicas. Um contrato com a Napalm rendeu mais 2 discos, aquela pegada mais acelerada, próxima do power melódico europeu que Tom renegou no começo é limada da obra. O lado mais denso e tristonho retorna, discos bem estruturados, um peso muito bem polido, música para ecoar seres sentimentais. Bom, tá tudo disponível no bandcamp deles, dá o play lá e seja feliz.

Se você curtiu este pequeno adendo sobre os WHW, mas quer saber um pouco mais, saiba que o Tom escreveu uma puta bio, onde ele conta vários detalhes da jornada da banda, clica neste link – https://web.archive.org/web/20131206184806/http://whileheavenwept.com/index.php?option=com_content&view=article&id=47&Itemid=102


Justin Broadrick passou a ser conhecido na música pesada por ser uma das cabeças dos Godflesh, um som que cravou a identidade do metal industrial nos anos 90. Em 2002, quando uma ruptura balançou as estruturas do Godflesh, Justin resolveu navegar numa outra onda, chamou o baterista Ted Parsons e o baixista Diarmuid Dalton – ambos com passagem pelo Godflesh, Justin batizou a nova empreitada de Jesu. Com sua tendência em sair fora do esquadro, rapidamente o projeto se tornou um marco na música alternativa, uma música explorativa e arrastada, um som de passagens urbanas como prega toda a estética visual. Jesu ajudou a impulsionar uma porrada de bandas a seguir pelo caminho do post-rock-metal e também, pelo sludge mais moderno.

Eu não vou me aprofundar na discografia da banda, ainda mais em se tratando de uma mente tão torta, sem medo de experimentar novas brisas, como fica evidenciado no disco mais recente, lançado em 2013, o lado rústico do fuzz com a maciez de algo beirando o post-punk juvenil.

Se vão considerar ou não os Jesu alguma coisa doom metal, é problema de cada um, mas não é possível negar que a banda se tornou uma fonte rica pra galera que tá vindo aí, aplicando um som seboso, lamacento e moderno, uma realidade que deverá ser aceita em breve, a mais nova onda.

Creio que Jesu esteja em um hiato devido ao retorno de Justin ao Godflash, fechando a dupla com o outro mentor GC Green, também não sei o que virá, o que será da banda, com tanta coisa produzida, isso pode ser o de menos.


Aproveitando o embalo pelo lado mais moderno do arrasto, como moderno no meu vocabulário é sinônimo pra França, já ouviu falar dos Year of no Light? A banda foi criada em 2001, mas o 1º disco nasceu só em 2006, pode-se dizer que é um play afrescalhado pro que a banda se tornou no decorrer do rolê, sim, temos aqui uma banda ao contrário, com um início mais melódico (ou levinho), passando a caprichar no desaceleramento e no peso, com influências do mais martelante stoner/doom.

O lado mais pesado foi aplicado em 2 discos; Ausserwelt (2010) e Tocsin (2013), ainda no 2013 eles exploraram o lado mais “ambient” de sua sonoridade, o que rendeu um disco chamado Vampyr. Você pode encontrar todas as obras no bandcamp deles.

Mais uma banda que serve de fonte pra galera do post-doom-sludge, ou qualquer coisa que se encaixe sonoricamente nisso aí, apesar do pouco material disponível, os YONL exploraram bem o tipo de som que queriam experimentar.


Pra sair ainda mais fora da curva, um trio biruta da Eslováquia. 0N0 (zero-N-zero), os maluco misturam um monte de coisa torta, tudo gira em torno do death metal com passagens arrastadas e contrastantes, entre vocais guturais e rasgados, atmosferas cósmicas banhadas num verde cromado, até o lado sútil e estranho, vozes emuladas e macias, enfim, uma verdadeira zona da porra. Os malandro ainda conseguiram o apadrinhamento do selo Transcending Obscurity pra lançar seu novo EP. A banda foi fundada em 2005 e segue com 2 discos na conta.


Pra encerrar, um torto mais reto. 0 X i S T (zero exist) nasceu em 2008 na Finlândia, a proposta é a de mesclar black metal com doom metal, o que eles mesmo intitularam de dark metal (até hoje eu não sei direito o que é e o que não é dark metal), mas no som da banda é possível notar um belo passeio por várias influências, do death podrão 90 em câmera lenta ao doom/death melodioso e deprê. A banda lançou em EP e mais 2 discos até encerrar as atividades em 2016.


Abordar esse lado mais torto do arrasto é um pouco trabalhoso, por mais incrível que seja, existe muito material documentado, muitas bandas se aventuraram por um caminho fora do esquadro, muitas sucumbiram, algumas estão por aí. Seguirei uma lógica torta também, tratando de bandas velhas e outras mais novas. Até a próxima.


 

G.Z/SUD

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