Stoner Rock, ou Roque Chapado – Do outro lado do deserto, a New Jersey dos Monster Magnet e dos Atomic Bitchwax

É amiguinho, se você pensa que os Caios são a última bolacha do pacote, saiba que vossa senhoria está completamente equivocada, ora pois.

No outro extremo em linha horizontal da Califórnia, na também litorânea New Jersey, um cara chamado Dave Wyndorf vinha fazendo barulho desde os fins dos 70, matriculado na escola punk, chegou a tocar com o Daniel Rey – que produziu discos dos Ramones e Misfits, tal fato repercutiria absurdamente no que estaria por vir. Dave fecha o time com John McBain (guitarra), Tom Diello (bateria) e Tim Cronin (vocal e baixo), protótipos sonoros são criados, assim como nomes pra banda, até que sob a alcunha de Monster Magnet nasce em 1989. Se muito leite com pera acha o debut dos Kyuss algo muito crú e rústico, provavelmente irá fazer careta quando ouvir o 1º EP dos MM, lançado em 1990, simplesmente azedo e cortante.

Tava nascendo a logomarca dos doido, um touro travado no pó a 1000 km por hora cuspindo fogo pelas venta, uma marca registrada que eles jamais se desvencilharam. Os Magnet também não são confortáveis ao termo stoner, preferem o termo retro-rock, como veremos, apesar da energia jovial dos 90, eles tinham um pé fortemente fincado nos 70, também investiram no visual retro, na arte dos discos, algo bem arriscado pr’uma época em que a fritação tava fora de moda, mas Dave já era um cara experiente, maduro, sabia onde queria chegar.

A debutagem rolou em fevereiro de 92, o Spine of God via um selo alemão chamado Glitterhouse, os maluco simplesmente mergulharam fundo em Hawkwind, Captain Beyond, Stooges e mais uma caralhada de banda ácida que viveu durante os 70, enquanto Garcia se destacava por sua voz macia e melodiosa, Dave se esgoela com uma voz rouca e levemente rasgada. Spine figura como mais um item obrigatório, é o puro creme duma música realmente chapada, algo que já estava sendo apagado e foi potencializado.

Um contrato com uma gravadora estadunidense de maior alcance renderia os próximos discos, a A and M Records. Em abril de 93 nasce o Superjudge, o disco mostra um som mais polido, parece ter sofrido influências da pegada mais desértica daquela engatinhante onda do roque chapado.

Dave é outro cara que escreve, ou melhor, rabisca o papel com ideias estapafúrdias, coisa sem nexo, fruto duma mente alterada, o que nos faz pensar novamente sobre o termo stoner, ideias que beiram o banal, mesmo que pessoais, fruto de algum tipo de delírio, de substâncias lícitas e ilícitas, carros, estradas, roquen roll, mulheres, putaria, apenas um pano de fundo pra escrever qualquer coisa que te inclua no sala dos loucos, roque realmente chapado. A faixa Twin Earth ganha um video-clipe, se tornaria padrão essa onda dos clipes no além mais; a banda mandando um som, mulheres dançando, até coreografia e tudo mais, o apele estético das ambientações e até o visual, sempre algo padronizado, uma banda sagaz.

Mas o disco que focou os holofotes na banda foi lançado em 95, o comercial e multi-colorido Dopes to Infinity, alcançado melhores lugares nas rádios, um clipe pra faixa mais macia, a doidona Negasonic Teenage Warhead.

O disco rendeu algumas turnês pelo mundo, era o início de uma era mais apelativa pra banda, não se pode dizer que perderam aquela sonoridade única de outrora, mas os rumos se afunilaram um pouco. Uma massa de gente afim de música pra dançar, se drogar, transar, ganhar grana no meio disso fazia parte dos planos.

Dave resolve passar uma temporada em Vegas, pra compor o disco seguinte, torrar grana com drogas, mulheres e jogar no bicho. Entre singles e singles antes do lançamento oficial do Powertrip em Junho de 98, já era esperado o disco mais comercial de todos, a profecia se cumpriu totalmente. A faixa Space Lord deu um empurrãozinho pra que o disco chegasse na Billboard daquele ano. Por incrível que pareça, o play ainda contém aquele peso ríspido da velha receita, mas é tão gingado e bem polido que os estadunidenses da massa aceitaram de boa. A See You in Hell é baseada num fita muito filha da puta que Dave presenciou, o cara pegou um busão pra Nova Iorque, trombou um casal hippie que revelou de bom grado ter matado seu próprio filho e enterrado num distrito de NJ, Dave abandonou o busão no meio do caminho, tomá no cu mano, séloko.

Outra coisa a se destacar é a quantidade de faixas, são 13, pra quem vicia em singles tocados na rádio e compra o disco apenas por aquelas faixas, deve ser desgastante.

God Says No é lançado em abril de 2001, mostra um som mais denso, uma certa dose melancólica, letras mais pra baixo, mesmo conseguindo manter a pegada comercial, até algo de grunge pode ser notado, que coisa mais deprê! Uma banda desgastada pelo gênio forte de Dave e suas tretas com membros, seu ego, sua frustração por não alcançar o topo.

Agora apadrinhados pela gravadora alemã SPV, em Monolithic Baby, a banda se aproxima de sua pegada visceral de outrora, como um quinteto de 3 guitarras, mais pesado e ácido, era hora de cair na real que servia pra agradar as massas eram os QOTSA.

No início de 2006, Dave quase bate cas 10 numa overdose provocada por ansiolíticos, ele passou a ter insônia com o acumulo de shows em turnês, sem pensar em buscar ajuda profissional, foi derretendo nas drogas e medicamentos enquanto podia, até que entrou em overdose por consumir quase um frasco de calmantes. Mas não foi só por isso, ele afirma que não estava vivendo em um bom momento, que seus “demônios internos” estavam consumindo sua sanidade mental. O rolê de mãozinhas dadas com a morte serviu de inspiração pro disco seguinte, lançado em novembro de 2007. Uma capa preto e branca nada comum na discografia da banda, com um certo ar desesperador, caiu bem pro que havia acontecido, pode ser considerado um disco mais experimental, um caldeirão repleto de influências que vão dos 60 aos 90, folk e psicodélico (60’s), até mesmo doses de industrial podem ser notadas no desenrolar da obra.

Sob os cuidados da gigante austriaca Napalm Records, nasce o Mastermind em 2010, mantendo a receita do anterior, faixas mais setentistas, algo de comercial, riffs já batidos.

Com o Last Patrol (2013), Dave e seus comparsas embarcam de vez em busca dos riffs e da atmosfera mágica criada nos 90, mais grave, mais chapado, menos excessos, menos comercial. Detalhe pro clipe foda pr’uma balada quase obscura chamada The Duck, além da capa do disco, a mais insana de todas.

Mindfucker fica curtindo no uísque por quase 5 anos, provavelmente o motivo do disco ser um dos melhores da banda, que mergulha num roquen roll fumacento do começo ao fim, revival, chapado, enérgico pra caralho, os filho da puta ainda tão em boa forma. Dave já passou dos 60, mas tudo indica que o tiozão ainda tem muita lenha pra queimar.

Se liga no groove da faixa título, puta pedrada, discão da porra!

Escrever sobre os MM e deixar de fazer o mesmo com os Atomic Bitchwax é um grande vacilo, da mesma New Jersey, distrito e tudo mais, por isso, este artigo também será dedicado aos caras.

O cerne da banda nasceu no início dos MM, já que Ed Mundell (guitarra), um dos fundadores, caiu pra dentro dos MM em 92, permanecendo até 2010. Ainda consta o baixista e vocalista Chris Kosnik (é o atual baixista dos Magnet) e o batera Keith Ackerman. Mesmo que a banda tenha sido fundada em 92, o disco de estreia só foi nascer em 99. Sem querer enfeitar a coisa, o trio caiu de cabeça no roque chapado dos 90 embebecido nos 70, pouco cantado/mais instrumental, Keith destrói a porra toda, puta pegada jazzística em sua forma de tocar.

Interessante a parceria do trio com o selo novaiorquino Tee Pee, bem conhecido no underground dos EUA por lançar bandas chapadas, foi tal selo que lançou tudo da banda. O power trio durou até o disco seguinte, simplesmente batizado de apenas “2”, lançado em 2000, logo em seguida Ed pula do barco.

O apenas “3” fica maturando por 5 anos, quem assume a guitarra é um fulano chamado Finn Ryan, ele pertenceu ao trio Core, também de NJ, que não vingou na jornada, deixou 2 discos na conta, na 2ª metade dos 90. Além da guitarra, Finn chega afim de cantar e assim o faz, o som sofre uma pegada mais garageira (traço de Finn que segue até hoje), até algo de Fu Manchu é facilmente notado.

É a vez de Keith deixar a banda, Bob Pantella (entrou nos MM em 2005 e segue com eles) assume o seu lugar. O novo trio resolve sair um pouco da caixinha, T4B (2008) tem algumas experimentações, já entrando no embalo das bandas que buscavam algo mais orgânico, o disco pode ser considerado revival, vintage, retro, qualquer coisa do tipo. O cover da Astronomy Domine dos Floyd ficou bem doido.

Abaixo, umas inéditas dum EP chamado Boxriff, lançado em 2006.

Os 3 birutas se mostraram insatisfeitos com as pirações que tinham conseguido executar até aquele momento, então tiveram a brilhante ideia de gravar uma jam de 42 minutos, fritação diversa, riffs atordoantes que ecoam vozes do passado, uma bela trilha sonora pra um remake d’algum jogo da sega ou da nintendo.

Mesmo figurando no submundo do submundo, o trio resolveu (agora) experimentar uma pegada mais macia, pra ser mais exato, comercial. O que pode ser conferido no Gravitation, lançado no fim de 2015, a intenção pode ter ligação com o fato de 2 deles estarem na formação atual dos MM, uma boa tentativa, mas ficou por isso mesmo.

Na mais recente empreitada, eles parecem ter seguido o caminho dos MM, muito mais roquen roll do que nunca, reto e direto, fumacento e marolento, aquele play pra agitar a gadeia e descer a porrada no amiguinho mais próximo. Force Field – dezembro de 2017.

Entre Caios e estas duas de NJ não são só milhares de quilômetros, existe também uma ruptura sonora quando o assunto é roque chapado, são rumos diferentes, mas por que então estão no mesmo nicho, no mesmo rótulo? Acho que você já pode chegar a sua própria resposta. Se for difícil, vai ficar ainda pior com as bandas que vem pela frente, sejam com as bandas da 1ª onda chapada estadunidense que precisam ser abordadas, sejam com as europeias que também virão pela frente, o roque chapado nasceu nos 90, num tempo em que ainda havia um solo fértil de identidade, de criatividade, mas de uma coisa todas estas bandas sabiam, riffs brutos e empoeirados, sabbathismos e setentismos precisavam fazer parte da fórmula, talvez seja o laço que as interligue.


 

G.Z/SUD

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Um comentário sobre “Stoner Rock, ou Roque Chapado – Do outro lado do deserto, a New Jersey dos Monster Magnet e dos Atomic Bitchwax

  1. Primeiro, elogiar suas considerações sobre os tortuosos caminhos, fusões, encontros e flertes que doom, stoner, death, gótico, etc fizeram entre eles desde os anos 80, sempre claras e precisas e com a linguagem adequada: sem firulas e roqueira!
    Sobre o MM: obviamente, conheço e acompanho o grupo há muito tempo(como é possível que esses caras ainda não tocaram nessas plagas?!), mas (re)ouvi praticamente tudo que postou. Muito interessante a trajetória deles, é nítido, para o bom ouvinte, como a música do grupo tem fases nítidas e como essas mudanças são expressões das neuras, problemas e doideiras do frontman – é tão gritante, em alguns clipes, o desejo desesperado dele de ser um rockstar dos anos 70 em pleno século XXI que chega a ser cômico. Em suma, o cara se expressa de verdade em sua música, uma das razões que a faz tão interessante.
    Já sobre o AB: grupo bastante interessante, mas menos que o MM, óbvio, soa derivativo por vezes.
    Valeu!

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