Doom Metal – por que tão impopular? – Os destaques da década de 2010, parte II – a onda do stoner/doom

Enfim chegamos ao ponto final de mais uma jornada rumo ao abismo do arrasto. Como já bem batido anteriormente, os 2010 marcam uma era qual uma mescla sonora se deu bem no submundo, no embalo do retorno em que um status de maconheiro e adepto de outras drogas alucinógenas passou a ter peso novamente, um culto ao obscuro, onde a imagem de Satanás se torna cult, símbolo de uma nova rebeldia, filmes empoeirados de terror passam a ter um maior destaque em tal nicho, assim como escritores do lado horrorífico. Se vivo, HP Lovecraft postaria uma foto no insta fumando num bong com o Dopethrone dos Wizard na vitrolinha, seria um ixxxxxtouro hein. Sim, de fato, toda essa onda é bem vazia, rasa, até estúpida em certos momentos, ostentar bongs, maconha vagabunda, discos digitais vintagistas, playlists no spotify, é uma nova era roqueira, e como sempre, vazia, não é a toa que algumas bandas de stoner/doom passaram a se dedicar em algo mais zen, espiritualista, embalados por Sleep, Om e por aí vai, também temos muitos representantes pós-modernos militantes em suas visões de mundo, até uma horda (do bem!) de patrulheiros buscando por aqueles que não se enquadram nos perfis da boa nova, para então deflagrar uma caça em meio ao que alguns aloprados chamam de cena. O stoner/doom vem contribuindo com a popularização do doom metal velha guarda, mesmo que sejam na maioria das vezes bem distantes, tanto na música quanto no conteúdo lírico, por outro lado, quem não entende muito do riscado fica perdido no meio disso, sem compreender o que diabos é stoner ou doom, ou os dois juntos, não é possível fazer muita coisa sobre isso, podemos no máximo, escrever sobre música e tentar ampliar os horizontes de quem é novo no rolê.

Mesmo com tais peculiaridades, a nova onda do stoner/doom se tornou a cereja do bolo, uma enxurrada de bandas pipocam todos os anos, em variadas formas, sejam mais sebosas, sejam mais 70’s, sejam coisas escarradas dos Sleep ou Wizard, muitas delas seguem em busca dum espaço nisso tudo. Modernidades, experimentalismo também marcaram este “ressuscitamento” de algo que nasceu nos 90. Então é hora de destacar as bandas que alcançaram melhores ares em tal nicho.

Tudo indica que a Inglaterra foi crucial na popularização do sub-estilo, mesmo não sendo a criadora, apenas uma difusora com Cathedral e Electric Wizard, então seria estranho aquele país não ter um representante do começo da década. Tem sim, e acabou abrindo espaço pras mulheres caírem de cabeça nesta onda, sendo fronteados pela Sophie Day no vocal e guitarra, me refiro ao quarteto Alunah. A banda teve um começo bem mais porrada, lembrando até os conterrâneos Orange Goblin, com o tempo foram desacelerando e hoje perderam boa parte da visceralidade do roque chapado.

Um quarteto alemão que conseguiu equilibrar o lado pesado e denso com uma pegada zen, aliando doses da psicodelia e chapação dos 60/70, os Samsara Blues Experiment, um fato curioso pode ser apontado neste momento, o de que a Alemanha não é dotada duma escola desacelerada e chapada, um país muito mais metalizado, talvez um dos motivos para a obra dos SBE transpirar uma certa originalidade. Hoje a banda é um trio e conta com mais 3 discos.

Falando em país sem uma cultura na onda discutida, da Ucrânia, 3 caras causariam um alvoroço nos novos horizontes da música chapada e lerda, os Stoned Jesus. Em seu início, também trazendo aquela névoa cinzenta dos 70, rude e sabbathico, o debut caiu rapidamente no gosto dos adeptos. Mas o disco seguinte serviria pra colocá-los de vez na rota do rolê torporizado.

A música mais famosa que atingiu estratosféricos 12 mi de acessos no youtube, sem dúvidas, um grande marco pr’uma banda underground.

Com o tempo, a banda foi se distanciando de sua sonoridade primordial, apostando num som mais torto, lapidado e enérgico.

Não muito distante geograficamente dos Jesus Chapado, num país também nada influente no stoner/doom, os poloneses Belzebong chegaram apostando num som instrumental enfeitado com inúmeros samples de várias fita doida, escancaradamente apologistas da erva canábica em um país extremamente cristão, admirável coragem.

Apesar de debutarem em 2008, seria o 2º disco dos estadunidenses Elder que os destacariam no meio do fervor. A voz melodiosa e o gingado influenciado pelos Kyuss, além do necessário peso rústico, o que encerrou num som diferenciado naqueles tempos. Até o presente momento, com mais 3 discos na conta, a banda segue badalada entre os apreciadores.

O Canadá pariu um representante querido entre os adeptos do lado mais seboso da coisa, os Dopethrone, cujo batismo foi retirado do disco (talvez) mais famoso dos Wizard, contrariando alguma expectativa em relação a isso, o trio meliante não tentou copiar o som dos ingleses. Uma banda na contramão do comum, iniciaram com um disco bem polido e depois foram aplicando sujeira encima de sujeira, evidenciando suas influências provindas do sludge.

Os ingleses Conan vinham capengando desde 2007, só conseguiram por um play na praça em 2012, creio que tenha sido tempo suficiente pra banda lapidar aquilo que queriam fazer. Na real, eles chegaram fazendo nada muito além do que era comum, o que provavelmente tenha os feito alcançar mais espaço foi o apadrinhamento da Napalm Records, que lançou o 2º disco deles.

Com o tempo, eles preferiram modernizar o som, o que pode ser observado no mais recente disco, lançado em 2018, mais trampado, mais torto, com doses disso que vocês chamam de djent.

Retornando à Polônia, temos um quarteto que também chamou bastante a atenção, não tão maconhista como os Belzebong, os Dopelord foram jogar no time dos adoradores do diabo, mas eles também não se satisfizeram em seguir por um caminho mais reto, nas duas seguintes obras, deram asas ao experimentalismo, claro que nada muito fora do esquadro, bebendo da fonte primordial, potencializando uma pegada mais metalizada, com direito a refrões, coisa não tão comum nessa pegada sonora, é até possível dizer que o disco mais recente (Children of the Haze – 2017) serve pra bater cabeça.

Nos states, mais uma banda fronteada por mulher, os Windhand com sua paleta de cores recheada com púrpura e cinza. Quando o debut deles caiu no rolê (2012), foi uma onda de elogios e cabeças feitas, obscuro, frio, a voz de Dorthia Cottrell ao fundo, como carne da atmosfera que embebedava aquele som maldito, uma banda que já vem servindo de influencia pra galera que foi chegando depois. Mas, eles não conseguiram se deslocar em seu próprio som, batendo na mesma tecla nos 3 discos seguintes, mesmo assim, seguem sobre os cuidados da tradicional Relapse Records, os permitindo alcançar mais lugares por aí.

Ainda nos EUA, os Egypt nasceram em 2003, lançaram um debut em 2009 e o disco estreante só foi lançado em 2013, até aqui, a banda menos sebosa, mais preocupados com o lado 70’s, sem deixar de aplicar o peso típico descrito na cartilha. A banda lançou 3 discos até encerrar a jornada em 2018. O mais curioso na caminhada deles é que o EP de 2009 foi o material que mais agradou a galera, alcançando milhões de visualizações.

Pra encerrar, um representante dos nórdicos, o trio sueco Monolord. De tal banda poderia se esperar algo mergulhado na veia mais revival, já que aquela região se tornou a maior exportadora dessa nova onda, mas não, os Monolord entraram de sola num som quase hipnótico, repetitivo e psicodélico, simples, pra ser mais exato, desde então, eles vem fazendo a cabeça de muita gente. (tocarão na edição 2019 do festival paulista Setembro Negro)

Mas como assim tão pouco? É, realmente! Se você vai além do óbvio, segue canais e espaços difusores, como a SUD é, sabe que muito mais coisa aconteceu, eu optei por passar rápido pelas que foram de melhor agrado, mas nas entranhas do submundo, o rolê é muito mais frenético do que parece. Ainda no mundo dos nórdicos, tivemos os Salem’s Pot, bem teatral e mais 60’s do que o comum, os Mammoth Storm, projeto de Daniel Arvidsson – guitarrista da tristonha Draconian, onde ele consegue chegar num peso afiado e chapado único, os Besvarjelsen, com uma pegada fortemente rústica, psicodélica e até introspectiva em certos momentos.

Ainda na Suécia, The Graviators que conseguiram um contrato com a Napalm, mas no fim, só lhes restou o fracasso, eram tipo um Orchid, porém, mais violento. A banda nem existe mais.

Bandas mais experimentais também marcaram presença, na França com os Stangala – a pegada rústica regada por música celta, os Huata, também teatrais, no início era algo chupado dos Wizard, já no disco seguinte (2018), os caras parecem ter ido beijar a batina dos Ghost.

Da Alemanha uma citável, os Mountain Witch com o seu fuzz ligado nos 70, uma banda que transmite sem dificuldade uma magia das bem obscuras.

Um experimento bem interessante veio dos italianos Riti Occulti, com um pé no black metal, vocais femininos rasgados e um vocal angelical, mergulhados em assuntos esotéricos diversos, foram 3 discos apresentando um amadurecimento, mas infelizmente, mais uma banda jovial que se despediu do rolê. Se liga no cover doidaço duma dos bitous.

Ainda na Itália, ainda no lado mais ‘satanais na fita’, os Caronte são dignos de citação, até chega a ser curioso o motivo deles não terem conquistado a garotada, falam do diabo, de drogas, de putaria, tudo que o povo adora ver, ou será que só os Wizard interessam nessa porra? É meus caros, por incrível que pareça, poser ainda existe, pragas são difíceis de extinguir!

Mas então quais são as previsões para o futuro? Não sei, não sou mãe Diná! Se vai melhorar ou piorar é tudo uma questão de como você enxerga tudo isso, do quanto você está disposto a correr atrás daquilo que necessita de um esforço pra ser alcançado, a eterna beleza do underground. Alguns otários acreditam que essa atual “popularização” do doom metal, em grande parte, culpa do stoner e do sludge, não é nada boa, claro, são seres acomodados e idiotas, acreditam que isso pode causar manchas na História do estilo e demais qualquer baboseira digna desses pulhas, talvez tenham se esquecido, ou mesmo reneguem que isso já aconteceu, quando as bandas mela cueca dos anos 90 surgiram, praticando algo completamente distante do que era feito nos 80, vocais guturais, teclados melancólicos, letras de corno, sim, aquela época foi mágica, bandas maravilhosas eclodiram, mas tudo aquilo não passou de um modismo passageiro, tanto que praticamente nada daquelas bandas sobrou, as mais famosas se tornaram comerciais, porque sempre tiveram aquela ânsia, apenas grana, vamo nessa, que se foda.  A coisa piorou com aquela onda gothic/symphonic onde ninguém mais sabia o que era o que naquela porra, uma espécie de herança maldita daquelas bandas de “doom” comerciais. Por isso é extremamente imbecil torcer o nariz pra nova onda do doom metal, seja ela qual for, o estilo sempre estará fadado ao universo underground, porque jamais será pra qualquer um, exige maturidade, estado de espírito compatível com a proposta, são as maiores qualidades do estilo que afastam muitos deste caminho, isso nem é proposital, faz parte da essência do doom metal, aliás, é o estilo com mais essência bruta possível, por sua longa e rica História, por sua capacidade de se metamorfosear e se manter underground, não foi feito pra agradar, foi feito pra sentir, pra esmagar, pra soterrar a sua alma, moer os seus ossos, atormentar a sua mente, desacelerar o seu ódio. Doom metal é muio mais complexo do que imaginamos, por isso sempre será impopular, cada vez mais sorrateiro, se misturando aqui e ali, sofrendo alterações modernas, mas sem deixar o seu princípio ruir, o peso, o arrasto, o sufocante e dilacerante martelo da desgraça!

A SAGA CONTINUA! DOOM BE DOOMED OR FUCK OFF!!!


 

G.Z/SUD

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Um comentário sobre “Doom Metal – por que tão impopular? – Os destaques da década de 2010, parte II – a onda do stoner/doom

  1. Bem, primeiro, avisar que não deixei de acompanhar o blog, não inteiramente. Ouvia as músicas postadas nas matérias aos nacos, anotava impressões para comentar adiante, daí as anotações se perdiam, a droga do wordpress ignorou meu cadastro um tempão, retomava a audição de suas longas listas(essa observação não é crítica, ao contrário) e ao digitar o comentário esse sumia (foi o caso desta matéria em especial). Chega de desculpas lamuriosas, vamos lá:
    Alunah -grupo comum, audível e esquecível;
    Samsara Blues Experiment – um dos melhores de toda a safra stoner/doom/psicodelia dos últimos 10, 15 anos, fácil. Música hipnótica, doida, quem assistiu aos caras ao vivo, numa das duas passagens por esta terrinha, há de concordar;
    Stoned Jesus – no começo, uma cópia barata do Sabbath, depois ficaram mais interessantes. Goste-se ou não de ‘I´m the mountain’, inegável que é um clássico do gênero, muito influente;
    Elder – belo grupo, a se prestar mais atenção;
    Dopethrone – ficaram bem mais interessantes conforme amadureciam a música;
    Conan – mais do mesmo, o último disco é uma modernice que soa forçada;
    Dopelord- só posso assinar embaixo de sua definição sobre eles;
    Egypt – mesmo caso do Stoned: gostando ou não, o interessado no gênero tem de conhecer, para sacar parte importante da cena;
    Besvarjelser(ou algo assim!!) – já tinha aparecido em outra matéria do blog, certo? Doideira para viajar legal, muito bom;
    Stangala – um dos mais interessantes grupos que apareceram nas páginas do blog em um bom tempo, obrigado por mostrar esses malucos (o clipe é ótimo, muito bem-humorado);
    Os dois grupos italianos: pqp!!! esses ‘mamma mia’ sempre arregaçam no lance mais macabro do rock chapado e lerdo.
    É isso. Espero retomar as audições e comentários com mais regularidade, pois também tenho blog e sei como a resposta dos leitores é estimulante. E de novo, parabéns e obrigado pela empreitada!!

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