Stoner Rock, ou Roque Chapado – Ato I, Origens

Após uma longa jornada pelas brumas mais nebulosas do doom metal, mesmo que ainda restem lacunas a serem preenchidas, está mais que na hora de abordar um outro lado da proposta da SUD, o fumacento stoner rock, ou, roque chapado, termo que prefiro muito mais utilizar e o farei com afinco no desenrolar desta nova jornada.

É um tanto complicado determinar o que de fato é o roque chapado, não tão antigo como o doom metal e não tão maleável ao metal em si, o stoner se enraizou nos anos 90, produziu muita coisa até os 2000, após isso, as bandas mais novas passaram a experimentar algo diferente, os Monster Magnet adotando uma pegada mais 70’s ainda nos anos 90, assim como os Nebula, temos o início da onda vintage e revival no mundo da música pesada e chapada, talvez pelo completo fracasso do new metal e o período obscuro em que o emocore irrompeu, seja lá a saturação que entediava aquela juventude afim de fazer um som mais visceral, sujo, mais roquen roll, foi então que aconteceu uma coisa que segue muito em voga; uma espécie de fusão entre o stoner selvagem dos 90 com o chapado hardão 70’s, o que acabou produzindo bandas como Kadavar, Wolfmother, The Sword, Royal Thunder e, por que não, os Graveyard, lá no seu início. Enfim, muitas outras surgiram se embriagando na mesma fonte, mas, poucas atraíram muita atenção. O underground regado a roque chapado eclodiu violentamente, qualquer roquen roll mais grave e porrada, qualquer grunge mais selvagem, passou a ser stoner, o chamado “roque vintage” também passou a ser stoner, uma tremenda bagunça quase parecida com o que aconteceu com o doom metal nos anos 90, embalado pelas bandas choronas com vocais guturais e extrema lentidão, o que quero dizer com isso? Muito simples, aquilo que veio a ser chamado de stoner, criado nos anos 90, com sua pegada característica, acabou se perdendo no meio da bagunça, ou melhor, quase se perdendo. Não é possível afirmar veemente que ocorreu um modismo (ou ocorre), qualquer pessoa em sã consciência, em pleno contato com os seus rolês sabe muito bem que o roque chapado não passa de um nicho dentro de outro maior, que é uma mistureba doida, cruzamentos diversos de sonoridades que se agregam, ou seja, o stoner não é o galã da parada, é apenas uma ferramenta sonora. Assim vemos a potência de todo o revival 70’s no mundo todo.

Uma outra vertente (metálica, no caso) que se agregou perfeitamente ao roque chapado é o doom metal, aquilo que se tornou o stoner/doom, tendo Sleep e Cathedral a frente, acompanhados dos Electric Wizard (em 1995), o que gerou mais uma certa confusão, e ainda gera, stoner/doom pode ser apenas stoner ou apenas doom, dependendo do apreciador, não é raro de notar isso numa conversa de rolê e ainda muito mais nas mídias, sejam especializadas ou não. Talvez, pelo fato de passar desapercebido o que ocorreu lá no início dos 90. De um lado os Kyuss, com um som metalizado, ao mesmo tempo roquen roll com grunge em seus 2 primeiros discos (Wretch e Blues for the Red Sun 1991/92), já os Sleep com o seboso, arrastado e chapadaço Vol. One (1991) e o sabbathico até o talo Holy Mountain (1992), naquele tempo, uma banda emulando vorazmente o Sabbath 70’s, algo que eclodiria de 2010 pra frente. Em Welcome to the Sky Valley (1994), os Kyuss moldam uma nova forma de roque chapado, cadenciado, monolítico, psicodélico. Mas no meio disso tudo, os também estadunidenses Monster Magnet (1989), haviam aplicado sua pitada na bagaça. Nos primeiros 2 discos (Spine of God e Superjudge 1991/93) eles apresentavam uma sonoridade com um pé fincado no hardão 70’s e na onda space rock, numa linha Hawkwind, em 1995, eles chegam com Dopes to Infinity, mais lapidado, mais pesado e até comercial, mesmo sem deixar a cara dos anteriores de lado. Temos aqui, praticamente, os 3 pilares principais do roque chapado, 3 bandas distintas, na mesma intensidade sonora, parte do mesmo conceito sonoro.

Mas o que será que contribuiu pra que essas bandas chegassem em tais sonoridades? Além das drogas, do boom criativo da época, do boom do grunge, do suporte que a MTV prestava? Teremos que mergulhar uma vez no passado em busca de tais respostas, mete fogo no fino, aumenta o som e boa viagem!


É unanimidade entre muitos apreciadores do roque chapado que o molde do estilo foi criado por um trio californiano em 68, ao executarem uma versão para uma música gravada 10 anos atrás, a Summertime Blues (Eddie Cochran). A versão mostra uma faixa totalmente selvagem e pesada de mais pros padrões da época.

Versão original –

Vincebus Eruptum dos Blue Cheer acabou se tornando um molde não só pro roque chapado, mas pra tudo de pesado e selvagem que viria em seguida, como o heavy metal. Jimi Hendrix também deixou sua herança, a popularização do pedal fuzz e do wah-wah.

Jimi Hendrix – Love or Confusion (1967) from Aklaloyd on Vimeo.

1970 não marcou só o debut dos Black Sabbath, outras bandas também deixaram a sua marca, apresentaram ao mundo sua própria forma de interpretar o roquen roll, ou melhor, o ainda prematuro heavy metal, recém saído das entranhas do hard rock. Como é o caso dos novaiorquinos Sir Lord Baltimore, um trio cujo baterista também cantava, o finado John Garner.

Muitos gringos entendidos do assunto apontam a Sweet Leaf como a pérola que os Sabbath deixaram para o roque chapado. Num disco que traria Children of the Grave como a pitada final para o desenrolar do heavy metal, e por fim, a Into the Void que soa como uma afirmação para a Sweet Leaf, não só pro stoner, como para o doom metal.

Os ingleses não podiam ficar de fora, além dos Sabbath, uma banda que lançou apenas um disco em 71 também deixou seu nome riscado na lista das bandas base, os Leaf Hound aliavam uma pegada ríspida com cadências típicas do hardão da época.

Em 1972, mais uma banda californiana agregaria aquela pegada rústica e chapada, os Captain Beyond e seu debut bem gingado, é como se eles tivessem pego o que Hendrix fez, potencializando, aplicando mais peso, sem perder aquela característica psicodélica da época.

Apesar de não ser uma banda tão adepta do peso, os ingleses Hawkwind, com uma música fortemente brisada sem ser uma coisa fritada sem fim, de certa forma, contribuíram, influenciaram as bandas mais novas, como a já citada Monster Magnet.

Um quarteto australiano lançou o que poderia se dizer a pedra fundamental, caso eles tivessem conseguido os holofotes do mundo, tivessem se tornado famosos. O Volcanic Rock (1973), tem o que o stoner e o doom metal velha guarda necessitam.

Os BOC apresentam no 2º disco um som mais estridente mesmo sem perder aquele lado 60’s, o que também pode ser incluído no panteão das sementes do roque chapado.

O baixista e o vocalista da banda texana de hardão Josefus, tentaram uma pequena empreitada que resultou em duas faixas de algo bem poderoso pra época, uma puta lástima os Stone Axe não ter vingado. Duas faixas macabras pra caralho!

É possível incluir uma caralhada de banda nessa brincadeira, os MC-5, Led Zeppelin, The Doors, The Stooges, até Motorhead… bandas piradas e alteradas que marcaram os 60 e 70, mas me limitei a expor as que agregavam mais peso, um peso diferenciado, porque sabemos muito bem que a onda do roque chapado é muito mais moderna do que isso.

O punk roque sabbathico dos Black Flag em My War (1984) é apontado como uma das principais influências dos Kyuss, principalmente de Josh Homme, banda que também influenciou os Saint Vitus, mesmo sendo da mesma época.

Falando nos Vitus, é bem provável que eles tenham servido de base pra mulecada dos 90, podendo incluir aqui os Misftis também, os Ramones, até mesmo, a fase 70’s e obscura dos Pentagram. Ainda nos anos 80, duas bandas chegam com um grito jovial de quem não queria soar tão grunge, podemos incluir os 2 primeiros discos dos Melvins e os 2 primeiros dos Soundgarden na brincadeira.

Mesma escola sonora com formas diferentes de executar seus riffs, sem sombra de dúvidas, o stoner e o sludge são criações estadunidenses, conseguiram alguma coisa na luta contra o alto padrão criativo inglês.

Também seguindo por um caminho mais torto, mais “alternativo”, o debut dos Helmet pode ser incluso aqui, seus riffs se aproximam muito do que veio a ser feito a posteriori, inclusive no debut dos Kyuss, lançado quase um ano depois.

O pesadíssimo debut dos Alice in Chains e seus riffs metálicos também formam a base do roque chapado, traz a aspereza, o peso que se fez necessário na primeira safra que viria em seguida.

Até mesmo o debut dos Nirvana tem a sua parcela de influência no roque chapado, com uma cara 70’s e punk, mal polido intencionalmente, além do mais, deve ter marcado toda aquela geração, sejam do deserto ou não.

Creio que esta pequena introdução é o suficiente, afinal, o que virá após disso teve sua bandeira fincada como sendo definitivamente os representantes do roque chapado, como de costume, como creio ser o correto, continuaremos pela ordem cronológica. No 2º ato, tratarei das bandas noventistas que exportaram suas formas de executar música chapada pro mundo, de Kyuss a Orange Goblin, de Monster Magnet a Spiritual Beggars. Até lá.


 

G.Z/SUD

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