Doom Metal – por que tão impopular? – Ato III, anos 2000 – Parte I, primeira metade da década

Os anos 2000 foram marcados por focos de manutenção e criatividade quase que isolados, as novas mutações na real, se tronaram fusões de matrizes primárias diversas, como é o caso da finada banda estadunidense Agalloch (1995), lembro muito bem do meu primeiro contato com a banda, quando ouvi o The Mantle (2002) pela primeira vez, foi algo mágico. Ashes Against the Grain (2006) foi ainda mais loko, é o meu preferido, mostra uma banda com fortes doses de post-rock, uma subvertente que floresceu forte naquela década e, hoje se tornou um looping infindável de bandas iguais. Agalloch trazia todo aquele apelo (neo)folk, mas diferente do romantismo alemão dos Empyrium, eles investiam no lado mais rude da coisa, guitarras cortantes e geladas típicas do black metal nórdico.

Era uma outra forma de executar música desacelerada, densa e carregada de sentimento, aquela sonoridade fez parte de uma nova onda criativa e moderna que trouxe ao submundo bandas como Alcest, Les Discrets, Amesoeurs, Sólstafir, etc… Uma banda canadense chamada Woods of Ypres (2002) pegaria um embalo naquela onda, o que rendeu um EP num misto de Agalloch com Dissection, seu debut mergulharia numa onda mais gothic/doom. Enquanto os Agalloch enalteciam o inverno, o isolamento e a solidão, os WoY resolveram abordar questões ambientais. Foram 4 discos lançados entre 2004 e 2012, marcando o fima após a morte do mentor David Gold, em 2011.

Na Rússia, os Kauan (2005) executavam um som pouco polido, um tanto torto, cantando em finlandês. Praticamente seguindo o rastro dos Agalloch, porém, com uma sonoridade mais rica em atmosferas, obscuridade e momentos tétricos, rispidez, com o tempo, sua música seria lapidada e também investiriam doses do post-rock, além do roque progressivo.

Os estadunidenses Novembers Doom (1992) passaram batido nos anos 90, lançaram dois discos entre 95 e 99, ainda penariam mais alguns anos até chegarem numa fórmula sonora que os expandiram ao submundo, o lançamento do 5º disco – The Pale Haunt Departure, em 2005. Com uma sonoridade groovada, pegada Death Metal, cortante, mas com um cuidado no polimento, soava como um revival dos anos 90 naquela pegada.

Eles produziram vários video-clipes com o lançamento dos seus discos, apesar da pegada mais rude, a música mais famosa deles mostra uma banda adocicada, mesmo que eles não tenham seguido aquela receita.

Deixo uma faixa do debut da banda em que é possível notar o direcionamento inicial, fortemente influenciados pelos primórdios da escola inglesa. No fim, os ND conseguem manter uma pegada potente do death/doom 90’s com doses mais melosas, conseguiram alguma originalidade no meio disso tudo.

Ainda nos EUA, os Daylight Dies (1996) dariam continuidade ao lado mais meloso da coisa em seu debut de 2002, com um som ali entre Katatonia e MDB.

O tempo foi polindo melhor o som deles, de fato, pode-se dizer que a banda seguiu fiel a sua proposta inicial, fortemente carregado de melancolia, cortante e, com aquela pegada típica dos 90.

Uma banda na pegada dos DD, os Swallow the Sun (2000), formada na Finlândia, também conseguiu um certo destaque naqueles tempos. Traziam um atmosfera muito similar a dos Draconian, carregada por linhas de teclado emulando sonoridades tétricas, além disso, eles conseguiram incluir uns riffs mais modernos que beiravam o new metal.

O tempo e (talvez) um contrato com a Century Media foi amaciando o som da banda, cada vez mais parecido com os Draconian, com os Katatonia, StS é uma banda pra zé tristinho nenhum botar defeito e amar até a alma.

Pra encerrar o lado mais meloso, digamos que, das principais bandas do início dos 2000, os já ditos aqui – Draconian (1994). Apesar do início lá nos idos dos 90, a debutagem só rolou em 2003, uma época fértil pro tipo de som que eles haviam moldado, aquela melancolia e desolação exacerbada que beirava o funeral doom, o flerte do gutural masculino com o lírico feminino, resquícios de uma quase já extinta cena doom/death gótico. Ao contrário de muitas bandas daqueles tempos pra trás que aplicavam aquela pegada folk, o investimento em duas guitarras cortantes e nas linhas atmosféricas tristonhas de teclado alicerçavam completamente a proposta da banda.

Mas tudo indica que o ápice da jornada aconteceu em 2005, com o lançamento do 2º disco, melhor produzido, também financiado pela gigante Napalm Records, lembro do meu primeiro contato com o disco (algum momento entre 2007 e 2008), eu nunca havia ouvido algo tão pra baixo como aquilo, mas não era feio como os poucos funeral doom que eu conhecia, tinha uma beleza ali, nada comum. Na real, hoje eu não consigo sentir a mesma coisa, a não ser tédio, mas a qualidade da obra eu não discuto.

Draconian estagnou no tempo, muito pouco ousou além de sua receita primordial, conseguiu manter a qualidade, mas nada mais que isso.

Eu ainda poderia citar vária outras bandas que atravessaram a década de 2000 lançando discos na veia mais melosa, ganhando nome com o tempo, de fato, foi uma época de forte culto à melancolia, discos melhor produzidos, gravadoras de grande porte abraçando várias bandas, foi um tempo bom pra quem se aventurava naquela onda, porém, muito menos criativa em relação aos 90. Posso ressaltar aqui também, o fato de muitas bandas brasileiras terem surgido naquela época, pouquíssimas sobreviveram, a maioria nem chegou a gravar um debut. Uma época que se conhecia bandas via myspace, blogs de download e comunidades de orkut, era o início do acesso à informação da massa, o culto ao mp3, ao youtube, um tempo em que era possível acompanhar de perto o que tava rolando no mundo da música pesada, foi algo até revolucionário, ampliando o leque de gostos e de sonoridades.

Ainda que seguindo o lado mais meloso da coisa, os ingleses Warning debutaram em 99 com um play calcado também na onda mais tradicional, algo já explorado no debut dos também ingleses Solstice (o Lamentations de 94), faixas longas, fortemente arrastadas banhadas pelo lamento tipicamente inglês. Warning lançou o 2º disco em 2006, encerrando as atividades em 2010, após o lançamento de um EP, o fundador e único membro original – Patrick Walker (guitarra e voz), fundou o 40 Watt Sun, que nada mais é do que a continuação do que era feito nos Warning, porém, com mais melancolia, a nova empreitada conta com 2 discos lançados até aqui (2011 – 2016).

Na Alemanha, os Mirror of Deception se enquadraram nessa onda dos Warning, mesmo que tenha sido formada em 90 (4 anos antes dos Warning), só debutaram em 2001, um pouco mais “épico”, com guitarras gélidas e cortantes da tradição nórdica, a banda gravou mais 3 discos, deram um tempo e atualmente está ativa, mas nada consta sobre material novo.

Falando numa pegada nórdica, os suecos Isole também são parte dessa pegada. Tudo começou em 91 quando a banda se chamava Forlon, resultando apenas em algumas demos, Isole cria forma em 2004, debutam em 2005, lançam mais 5 discos até 2014, os membros vinham se empenhando num projeto chamado Ereb Altor (fundada em 2003, mas o período produtivo só se iniciou em 2008), que soa como Isole misturado com Bathory. No fim, a sonoridade dos Isole acabou se confundindo com a dos Ereb Altor, o que pode ser resumido em duas bandas de metal viking desacelerado e épico. Isole segue parado enquanto a ênfase está voltada ao Ereb Altor.

Continuemos “em solo” nórdico pra falar rapidamente dos Reverend Fucking Bizarre, praticamente a banda responsável por dar uma levantada na moral do doom metal tradicional nos anos 2000, a saga do trio finlandês começou em 94 e acabou em 2007, com uma ideia inicial de lançar 5 discos e encerrar a jornada, o que não foi possível, mas, lançaram uma caralhada de splits de EPs, 3 discos, entre ele, o So Long Suckers (2007), um duplo no total de 7 faixas em pouco mais de duas horas, uma ousadia sem tamanho. Provavelmente, a música de maior expressão é a The Goddess of Doom (2004), a faixa estaria presente como um bônus do debut em outras versões. TGOD virou um single bolachão 12″ em 2011, quando “popularizou”, trazendo como capa a atriz Christina Ricci (a Vandinha dos Addams), fazendo uma alusão como ela sendo “a deusa da desgraça”, mas no fim, a faixa é uma espécie de homenagem/divulgação (d)às bandas que o trio mais curte no doom metal, lembro bem que foi através deste som que eu conheci várias outras bandas.

“Saint Vitus and Trouble, Witchfinder General,
Count Raven, The Obsessed and Pentagram,
Solitude Aeturnus and Candlemass,
Penance, Revelation, Solstice and Iron Man,
Mirror of Deception and Pagan Altar,
Cirith Ungol, Exitus and Scald,
Internal Void, Paul Chain and Warning,
Unorthodox, Cathedral and Cold Mourning.

While Heaven Wept and Minotauri,
Dawn of Winter, Spiritus Mortis,
Electric Wizard, Confessor, Stillborn,
Solomon Kane, Orodruin and Mourn.

We kneel at your altar, we bless thy holy names.
You gave Doom to men, we try to do the same.
But there is one, who is above you:
eternally hailed Goddess of Doom.”

Uma ideia bem genial da banda! De fato, os Reverend não foram muito longe no sentido de produzir muito material, mas a rudeza do seu som trazia o brilho de eras douradas, as pirações de Albert nas rotas ocultistas, o introspectivo baterista – Earl of Void, e o cara inchada Peter Vicar, com uma dose de pulso próprio, mergulharam forte na pegada visceral, era a volta do doom metálico, azedo, potente, pesado e desacelerado, mesmo que na primeira década de 2000 esse lado do arrasto seguia fortemente apagado.

Eles traziam também algo um tanto apagado na estética, na maioria das vezes, usando peitas de bandas, crucifixos, cintos de bala, coletes com patchs, mantinham aquela onda banger num tempo em que esse lado rebelde parecia estar defasado.

DOOM OVER THE WORLD!

As letras variavam sobre ocultismo e História (Peter é professor na área), além de temas bíblicos numa ótica parecida com a dos Trouble, como apresentada na faixa Burn in Hell, cuja letra demonstra um confronto com um falso profeta.

Se quiser mergulhar com mais profundidade na jornada banda, só cair aqui – Um mergulho no mundo do Rock ocultista – Ato V, Escandinávia – Reverend Bizarre/Lord Vicar/Spiritus Mortis e projetos

Na vizinha Suécia, os Withcraft voltariam ainda mais no tempo, com uma pegada que remete aos primórdios dos Pentagram, aquilo que chamam de proto-doom. Criada em 2000 por Magnus Pelander após o fim da Norrsken (banda matriz dos Graveyard), o debut foi apadrinhado pela Rise Above, lançado em 2004, até então, a onda revival tinha pouca expressão, o disco pode até ser considerado um dos principais alavancadores da nova onda da música velha que explodiu em 2010. Um som visceral e cru, pra hippies modernos que cultuam o demônio, mesmo que a banda não fosse completamente mergulhada no universo satanista.

Cover do Pentagram 70’s –

Os Witchcraft são um dos responsáveis por reviver também a estética visual, uma trupe de “bruxos” suaves, era o retorno da teatralidade vintage com uma dose modernizada.

Os 2 próximos discos seguiram pelo caminho mais visceral da onda revival, ainda sob os cuidados da Rise Above. Em 2012, via Nuclear Blast, o 3º disco chega com uma outra pegada, Legend traz um som mais polido e melódico, ainda que beba da fonte revival, pode-se dizer que soa como algo mais comercial, o que não quer dizer ruim.

A estética vintage é praticamente abandonada, tanto na arte do disco quanto no visual da banda. O mais recente disco, o Nucleus (2016), se distanciou ainda mais, soa como um vintage modernizado, o que é algo ousado, a visceralidade de outrora foi tão amaciada que poderia tocar tranquilamente na festa de casamento do seu amigo crente.

Como vimos, o início dos anos 2000 foi um terreno fértil pra onda mais melancólica do arrasto, ocorrendo uma espécie de atualização do desgastado doom/death tristonho, o que aconteceu após isso? Vamos descobrir no próximo artigo.


 

G.Z/SUD

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