Doom Metal – por que tão impopular? – Ato II, as peripécias dos anos 90 – Parte III, experimentalismos

Chegamos à terceira parte deste mergulho nos poréns do arrasto sonoro na década de maior efervescência criativa não só nos desacelerados, mas em todo universo da música pesada. É até um tanto complexo abordar os temas destacados neste artigo, não sendo possível alinhar uma ordem cronológica, o tanto de tentáculos que a música arrastada desenvolveu, o quanto ela se fundiu, é de uma riqueza imensa que impossibilita uma ordem, viva o Caos!

Os que apreciam o black metal, sabem de todas as bizarrices ocorridas naquela década maldita, enquanto as bandas nórdicas queriam executar algo crú, selvagem, tosco e macabro, algumas bandas optaram por executar algo mais lento, ainda que, naquela nova fórmula de black metal. É o que temos na gênese dos Samael (Suiça) e Bethlehem (Alemanha). Samael foi criada em 87 por Vorphalack (único membro da formação original), inicialmente com a proposta calcada no que os Hellhammer haviam feito, já no disco de estreia se nota um novo horizonte, não obstante, nos 2 próximos discos, os experimentalismos foram aflorando, um cuidado maior no polimento, linhas de teclado de uma classe absurda, um som não muito complexo, porém, dotado de uma atmosfera que te alucina pra caralho! Worship Him (1991), Blood Ritual (1992) e Ceremony of Opposites (1993) são obras que representam profundamente os variados rumos que a música extrema seria capaz de criar, são simplesmente insuperáveis, hoje, a banda segue por uma linha muito mais moderna, mas isso não vem ao caso agora.

https://youtu.be/khWREu3e7oM <

https://youtu.be/nA6cEswpnm8 <

https://youtu.be/vVzlSYXMLvA <

Os Bethlehem foram um dos responsáveis pelo embrião do chamado Depressive Suicidal Black Metal (DSBM), seu disco de estreia batizaria uma nova vertente metálica, o Dark Metal, digamos que um sub-estilo mais perdido que cego em tiroteio, soa como um black metal com doom metal tristonho. Mas de fato, Dark Metal (1994) é um disco aterrador, sentimental a maneira fria alemã, com atmosferas que beiram o bizarro, é uma música feia com sentimento.

Mas o que viria depois, seria ainda “pior”, Dictius te Necare (1996) e S.U.I.Z.I.D (1998) terminariam de moldar o DSBM, ainda mais feio, bizarro e agonizante, são discos que vale muito a pena por pra tocar naquele churrascão de família.

Com o tempo, Jürgen Bartsch (fundador e único membro original) passou a experimentar sonoridades mais modernas, mais macias, mas sem deixar a feiura de lado, o mais recente disco mostra um retorno aos primórdios.

Na noruega, uma trupe se inspirou nos discos black metal dos atuais poperô descoladinhos Ulver. Os In the Woods… iniciaram a sua jornada em 1991, debutando só em 1995, o disco trazia elementos daquele lado folk típico da época e daquele lugar.

https://www.youtube.com/watch?v=qaIbgd71hXg <

Mas o disco que mais importa desta banda ao conteúdo deste artigo é o Omnio (1997), é o momento que a banda atinge o ápice de sua criatividade musical, denso, hipnótico, progressivo, uma obra empoeirada, apreciada por aqueles que nunca se contentaram com a superfície da música pesada.

https://www.youtube.com/watch?v=2VxA2YwR2k0 <

O uso de violinos e cello, atmosferas cativantes, a voz lírica feminina, a alta carga sentimental sem se portar como o fundo do poço, é um disco simplesmente arrepiante, do começo ao fim, explorando caminhos ainda não percorridos, desempenhando um trabalho que ficou preso naquele tempo, cravado naquelas brumas, um disco único, jamais superado pela própria banda, jamais será superado por banda alguma! O disco seguinte faz jus ao nome – Strange in Stereo, realmente estranho, mesmo que bem loko. Um longo período de silêncio até retornarem em 2014, lançaram o 5º play em 2016 e o 6º está previsto para novembro de 2018.

Retornando à Alemanha para falar dos Empyrium, também baseados numa onda mais folk, o duo Ulf Theodor Schwadorf e Andreas Bach foram os responsáveis por 2 discos que serviria de influência para toda uma nova geração do doom/death melancólico, os A Wintersunset… (1996) e Songs of Moors & Misty Fields (1997). São obras bem açucaradas no potinho dos gélidos sentimentos, aquele som que cai como uma luva num dia de inverno, chuvoso, você contemplando sua total insignificância e incapacidade de ser alguém melhor, se tiver uma vista para floresta, prepare-se para ter orgasmos múltiplos.

Talvez não seja muito leviano dizer que os Empyrium foram os responsáveis por um novo “divisor de águas”, traços da escola extrema nórdica, fragmentos do neofolk, de música clássica, adição de temas românticos, culto à natureza, desolação humana, era uma (quase) nova receita, tal receita que seria vorazmente utilizada por bandas do leste europeu, inclusive, influenciou e ainda influencia muitas bandas brasileiras do lado mais triste da coisa. Após os 2 discos, Ulf Theodor seguiu só numa onda completamente voltada ao neofolk, a sua própria maneira de executar tal som.

Theodor também toca em outras bandas, o que foi mantendo sua pegada mais metal, em 2014, com músicos convidados ele grava um novo disco dos Empyrium, mesclando bem sua pegada metal com a neofolk.

Retornando à Noruega, é hora de abordar uma outra banda que também foi além mais do que a maioria. The 3rd and the Mortal foi fundada em 92, contando com 6 pessoas em sua formação, mostrariam a que vieram no EP Sorrow, de 94. Seguindo pelo caminho da musicalidade ancestral de seu país, juntando fragmentos de música obscura, um som bem trabalhado, fronteado por uma voz angelical, voz de Kari Rueslåtten, 3rd trazia mais uma obra com um rumo musical ainda não explorado.

https://youtu.be/ELQA_6sdfP4 <

A receita do EP permaneceria ativa nos 2 discos que vieram depois, por vezes mais melancólico e introspectivo, baseado principalmente na desenvoltura de suas 3 guitarras, sintetizador, a cereja do bolo, o vocal macio feminino. 3rd também serviu de profunda inspiração pras bandas do leste europeu que se aventuraram pelos caminhos mais tristonhos do arrasto.

https://www.youtube.com/watch?v=i93T3qeVSg4&t=667s <

Kari deixa a banda em 94, seu posto é ocupado por A.M. Edvardsen, ela traz um tom mais grave pro som. Após o Painting on Glass, os 3rd mergulharam numa onda ainda mais moderna, transformando o seu rico som em um poperô estranho, assim como várias outras bandas daqueles tempos.

3rd parece ter influenciado uma banda conterrânea que só debutaria em 99, os Madder Mortem, também fronteada por uma mulher, com uma estética sonora típica das bandas mais experimentais da Noruega, lembrando Arcturus e In the Woods…, aquela sonoridade durou apenas o debut, no 2º disco All Flesh Is Grass (2001), a banda mergulhou no lado mais comercial da coisa.

https://www.youtube.com/watch?v=D0eRut0AE4w <

Em 89, na Holanda, 5 caras fundam a The Gathering, debutam em 92 com um disco que se distanciava da sonoridade da tríade inglesa, também da tríade nórdica, carregado por um death metal obscuro, mórbido, teclados que aplicavam uma atmosfera mais próxima do rock progressivo.

https://www.youtube.com/watch?v=WFfdNVrwXnw <

O 2º disco nasce no ano seguinte, a pequena participação feminina no anterior é potencializada, uma vocalista chamada Martine van Loon participa de algumas faixas, fazendo os The Gathering pioneiros em aplicar a voz feminina (com mais ênfase) na onda doom/death. As mudanças são bem visíveis, a onda progressiva permanece, uma pegada mais gótica, vocais limpos, um som mais comercial.

https://youtu.be/wN7TrNrZvUw <

Almost prenunciava uma nova mutação dos Gathering, um som mais polido, diferente de tudo até ali, com forte investimento em atmosferas doidas, além da chegada de uma das maiores vocalistas da música pesada melosa, a doce Anneke van Giersbergen. Além de cantar, ela ocupou o cargo de compositora das letras do disco. Mandylion foi lançado em agosto de 95, é um play de uma beleza única, a voz de Anneke é ao mesmo tempo potente e doce, além do carisma que ela exalava, seus sorrisos, aquilo ali não tinha nada de triste. Mandylion marca o fim da voz masculina na banda, ainda bem.

Quebrando as leis sanctas do arrasto tristonho, saltitante, sorridente, dancinha bizonha, Anneke é um ser de outro planeta naquele mar de melancolia, coisinha mais linda ❤ .

O disco seguinte – Nighttime Birds (1997) – soa como uma continuação de Mandylion, ou até uma tentativa de obter o mesmo resultado com a mesma receita de Mandylion, o que obviamente não deu muito certo, mas é um disco bom. A “decadência” começaria em 98, com o lançamento do How to Measure a Planet?, mais uma banda que resolveu seguir por um caminho mais comercial, alternativo, algo mais próximo do pop da época.

Pra encerrar, voltemos à Noruega para falar dos Theatre of Tragedy, fundada em 93, trazia desde o seu início a presença da voz feminina aliada ao gutural masculino, guitarras cortantes tipicamente nórdicas, pianos emulados por synths, os ToT foram um dos maiores responsáveis pela onda do symphonic metal (gótico?), um movimento que floresceu fortemente no fim dos 90, principalmente, na Escandinávia, bandas como Tristania, Nightwish, Draconian, também influenciaram boa parte das bandas europeias da mesma pegada, mas fica evidente onde tiveram mais peso, uma vez mais nas bandas do leste europeu, desde as do doom/death tristonho até as que faziam algo mais “gothic metal”. Os 3 primeiros discos dos ToT são indispensáveis aos que querem ir por este caminho, como vimos nas outras bandas até aqui, eles também experimentaram, lapidaram o seu som em cada disco.

https://www.youtube.com/watch?v=IfTCJhGPqeQ <

O lado rústico do debut é esmerilhado no 2º play (1996), uma “evolução” rápida, os vocais de Liv Kristine recebem um cuidado muito melhor que no anterior, era de fato uma nova onda gótica com aplicação de harmonias que remetem à música erudita, uma estética visual baseada numa melancolia de séculos passados, foram desbravadores (ao lado dos Therion) de um novo solo, um solo bem fértil que produziria muita coisa no fim dos 90 e início dos 2000, além de confundir muita gente sobre que som afinal era aquele.

https://youtu.be/6wSWYdU5WII <

Mas a obra prima, ou pelo menos o disco que muitos consideram como tal, foi lançado em 98, parece que acompanhando os últimos suspiros de criatividade daquela década dourada pra música pesada mundial. Aégis é de uma beleza ímpar, mais simples e direto que os anteriores, recheado por uma atmosfera única, Liv aposta numa voz mais angelical e os guturais de Raymond são abolidos, deram lugar aquela voz jovial jubilosa que se tornaria típica nas bandas que seguiriam por tal caminho. Aégis crava de vez na terra o que seria o chamado Gothic Metal, não só musicalmente, estética visual, conteúdo das letras, forte influência de literatura romancista e obscura, sem deixar o culto à tristeza e da morte de lado. Como as outras bandas daquela pegada, o disco seguinte partiu pra aventura num puts-puts, techno como eles chamam, gastaram toda sua criatividade nos 3 discos, ou apenas se venderam por força maior, um mercado europeu mais preocupado com músicas alegres.

https://youtu.be/islo4emdqrY <

O doom metal genérico “criado” nos anos 90 já não era tão impopular assim, Paradise Lost vinha arrastando uma galera, após Icon e o Draconian Times, ninguém sabia muito bem o que era doom e o que era gótico naquele meio, uma década de inúmeras fusões, experimentações diversas, bandas com características próprias, uma época em que a originalidade era mantida, por mais volátil que tenha sido, produziu tantos discos maravilhosos e de uma importância crucial para aqueles que seguiram, seguem e seguirão pelos caminhos mais densos da música pesada, é no mínimo, ridículo, não se aprofundar nas obras daqueles tempos. Mas tudo aquilo se ergueu muito rápido e desmoronou mais rápido ainda, quase nada sobrou, sem manutenção daquele som, sem novos adeptos, as principais bandas mudando completamente os seus rumos, é o que chamamos de modismo, sim, foi puro modismo essa onda mais gótica, a parte boa são os discos bons, além do mais, o mercado fonográfico era diferente naquele tempo, ter uma banda era diferente naquele tempo, amadores não tinham espaço, muito diferente de hoje, um mar de bandas encalhadas na mesma praia.

Creio que na próxima parte, termino o mergulho pelos fatos mais relevantes e curiosos sobre a manutenção e desenvolvimento do Doom Metal, ainda resta algo mais a se falar sobre isso.


 

G.Z/SUD

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