Doom Metal – por que tão impopular? – Ato II, as peripécias dos anos 90 – Parte II, chapação e sebosidade

Ainda na primeira metade dos anos 90, uma outra forma de mutação desacelerada seria experimentada por um quarteto californiano chamado Sleep, aqueles caras vinham duma escola punk/crust, “criaram” uma nova forma de desaceleramento sonoro, com riffs forjados na escola inglesa primordial dos anos 90 somados à cadência sabbathica, um som seco, marretado, rude, ao mesmo tempo que carregava uma atmosfera torporizada, estava criado o alicerce do famigerado Stoner/Doom naquele 1991.

https://www.youtube.com/watch?v=SBI50y0lX3s&w

Após gravar o debut, o guitarrista e vocalista Justin Marler desapareceu do rolê, ele deu início a sua reclusão em um monastério de via oriental no Alasca, o que durou 7 anos, lá ele criou um zine chamado Death to the World, ainda escreveu seu primeiro livro com um monge comparsa, o Youth of the Apocalypse. Marler retorna à California, passa a se dedicar novamente à música, lança mais 2 livros, últimas notícias de seu paradeiro indicam que ele reside em Austin, no Texas.

Como quase tudo era muito volátil naqueles tempos, em 92 os Sleep (agora em trio) dão um passo a mais, apresentam um disco mais polido, melhor gravado, muito mais sabbathico e revival que o anterior, o Holy Mountain se tornaria uma pedra preciosa no mar das bandas pesadas e chapadas.

Imagem relacionada
formação que gravou o Holy Mountain – Al Cisneros, Chris Hakius e Matt Pike

https://www.youtube.com/watch?v=My8T8vTYaZ8&w

É preciso ressaltar que os Kyuss debutaram no mesmo ano dos Sleep, ou seja, o advento do Stoner como rótulo e movimento musical foi uma mero capricho num momento em que duas bandas de sonoridades pouco semelhantes ascenderam ao mundo dos vivos. Mas como é de praxe, os ingleses não poderiam ficar de fora dessa nova onda, foi então que um cara chamado Lee Dorrian, após cair fora dos Napalm Death, junta uns caras e dá início a uma das maiores Entidades do arrasto sonoro, os Cathedral, em 89. É no mesmo 91 que eles debutam, diferente da onda mais torta dos Sleep, com uma melhor lapidagem, toneladas de riifs destroçadores e um peso aterrador, a receita deles se baseava no que os Paradise Lost vinham desenrolando, mas, tinha algo mais alí. Forest Equilibrium mergulha num caldeirão contendo Sabbath, Candlemass, Pentagram, Trouble, num peso potencializado, carregando características daquela engatinhante onda noventista.

Dorrian não era só um vocalista cheio de ideias para uma “nova” sonoridade, ele também era um empresário, criou um selo chamado Rise Above em 89, além disso, passou a investir na estética visual dos discos dos Cathedral, após Dorrian ver uma exposição com as obras dum cara chamado Dave Patchett, sacou que esse era o cara que precisava, assim foi firmada uma parceria que duraria anos. As obras de Dave se tornaram um marco na carreira dos Cathedral, Dorrian sabia muito bem que manter uma estética visual aproxima os apreciadores de sua obra, ainda mais naquele tempo em que o material físico ainda era a única forma de consumir música. Tudo indica que Cathedral foi a primeira banda daquela nova onda inglesa do arrasto a produzir um video-clipe, em uma jogada sagaz, a banda escolheu uma faixa que casa bem o lado tristonho com o chapado, a Ebony Tears, em 91, via Erache Records, gravadora responsável pelo lançamento do debut.

formação que gravou o Forest; Mark Griffiths, Gaz Jennings, Dorrian e Adam Lehan

A bateria do Forest foi gravada pelo estadunidense Mike Smail, membro original dos Dream Death e Penance, não sei o motivo dele não estar presente na foto do disco.

Em 93, os Cathedral apresentam um disco completamente fora do esquadro do anterior, a fórmula básica que a banda passaria a usar dali pra frente foi crada no The Ethereal Mirror. A banda perde Mark G, Gaz grava as linhas de baixo e um baterista entra na banda, o Mark Ramsay, que cai fora logo em 94. Mark Griffiths ajuda a fundar os Year Zero e grava os 2 únicos discos da banda.

contra capa do Ethereal com a formação responsável pela gravação do play

O play foi lançado pela gigante Columbia Records, desta vez, foram 2 clipes lançados.

Ainda na Inglaterra, um trio novato após frustrantes investidas pelo lado mais podre do arrasto, mudanças constantes de nomes de banda, em 93, fundam os Electric Wizard, o debut nasceria em 95, um disco apadrinhado pelo selo de Dorrian, com a capa assinada por Dave Patchett. Em sua primeira empreitada em um novo universo sonoro, a impressão que fica é que os Wizard mergulharam no que Sleep e Cathedral já haviam feito e potencializaram com doses Sabbathicas e 70’s.

https://www.youtube.com/watch?v=CoGB8JNx1GQ&w

O disco de estreia não foi o suficiente pra eles, seguindo o caminho inverso dos Sleep e dos Cathedral, os Wizard deixaram o lado mais polido pra mergulhar no fuzz abismal do seu próximo play. Aquele vocal baseado no tio Ozzy cai por terra e dá lugar a uma voz carregada de desprezo, o baixo é potencializado, a bateria repicada e marcada por um trampo de pratos, o som da banda mergulha num mar obscuro regado num sulco de canabis que escorre pelas paredes. Come my Fanatics marcaria uma nova geração do ainda engatinhante Stoner/Doom Metal, um som feio, atormentador e torporizante. Desta vez, o próprio Jus cuidou da arte da capa, o que seria frequente a partir daquele momento.

 – https://www.youtube.com/watch?v=-eUVubC7ojM&w

formação inicial dos Electric Wizard; Tim Bagshaw, Jus Oborn e Mark Greening – mantida até 2003 e rendeu 4 discos

Tal tríade que se destacou no que hoje é conhecido por stoner/doom metal comungava apenas dum princípio sonoro que partiu da mesma fonte, nenhuma delas, sequer, resvalaram-se sonoramente após isso, exceto o debut dos Wizard, como já dito, parece ter aplicado influências de Cathedral e Sleep, o que não é nada de mais. Sleep acabou criando a sua característica sonora a partir do 3º disco, o Jerusalem (1998), orbitando por eiras do movimento zen, minimalismos e repetições de riffs, mas tudo indica que tal receita só seria definitivamente estabelecida no Dopesmoker (2003). Além de assuntos voltados à espiritualidade, temas bíblicos filosóficos, investiram forte no culto à canabis, criaram uma marca registrada baseada num humano errante do cosmos adepto da maconha, uma roupagem desenvolvida em seu Dopesmoker, astutos, ao investir numa arte visual original, um som incomum e experimental sem fugir do peso e do arrasto, conseguiram atrair mais atenção. Wizard foi uma vez mais pelo caminho totalmente contrário, pregando a aversão à espécie humana, fruto (segundo a própria banda) do isolamento rural, abuso de drogas, assédio policial e uma escalada geral no estilo de vida violento a qual foram submetidos no interior da Inglaterra. Não satisfeitos, também  aplicaram um culto à maconha, filmes de terror produzidos nos anos 70 (Hammer Films), pornografia 70’s, satanismo de gibi, HP Lovecraft, todo tipo de coisa abismal do lado B, seu som passou a ser carregado por uma atmosfera obscura, odiosa, transmitindo desprezo, com o tempo, doses ácidas de psicodelia foram aplicadas. Já, Cathedral, pode ser considerada uma banda nascida em berço de ouro, influência e bons contatos de Dorrian, um rumo musical bem estabelecido, como se fosse o lado burguês da coisa, lançando discos na Europa e América, seus clipes passando em canais de TV, um visual 70’s beirando o hipster atual, temas ocultistas e mitológicos, figuras do folclore e cinema, apurado tato audio-visual, o caminho para eles foi o menos difícil. As 3 bandas criaram suas próprias identidades, sem nenhum tipo de estética parecida entre elas, Wizard e Sleep só teriam mais espaço, só teriam mais alcance após meados dos 2000, ambas seriam responsáveis por embalar uma quantidade de jovens a se aventurarem naquela receita sonora, muitas já tombaram, outras surgem quase mensalmente, de pouca durabilidade a grande maioria, na atualidade, quase tudo nesse meio é descartável devido a falta de qualidade (no geral) e originalidade (por mais que esse adjetivo seja forte de mais hoje em dia). No mais, tudo indica que foram essas 3 bandas as grandes responsáveis pelo boom stoner/doom sofrido no início dos anos 2010.

Aos que quiserem mergulhar mais fundo na jornada dos Cathedral e dos Wizard, é só acessar este link: Ocultismo, exoterismo, satanismo, filmes de terror. O lado obscuro da Música Lenta. Ato III – O leque se abre e a bruxa lança sua praga (80/90)

Indico também um mergulho pelo lado B das primeiras bandas a se aventurarem pelo universo do stoner/doom: Stoner/Doom, é hora de chapar!

Nos EUA, um trio chamado Melvins vinha fazendo um barulho estranho, macabro, pirado e arrastado desde a segunda metade dos 80, é bem provável que um dos alicerces do chamado Sludge Metal teria sido firmado no disco de estreia deles, o Gluey Porch Treatments.

https://www.youtube.com/watch?v=PJOsvcVg590&w

Em 1990, 5 caras de Nova Orleans debutam com sua banda Eyehategod, o momento que é considerado o início de uma nova mutação do arrasto sonoro, o Sludge/Doom Metal. In the Name of Suffering é crú até o talo, feio, aliando fragmentos do Death Metal, do HC/Punk Rock, carregado de ódio, indignação, alucinações em função das drogas, realmente lamacento, urrando do fundo do poço.

https://www.youtube.com/watch?v=gS5F9YLGvvs&w

Desta vez, todo o mérito do desenvolvimento de tal sub-vertente é dos estadunidenses, mas o fato é, na primeira metade dos anos 90, o sludge/doom era só algo diferente, restrito a pequenos nichos. O movimento recebeu o batismo de NOLA, uma abreviação e junção de “New Orleans e Louisiana”, justamente baseado no primeiro foco do sub-estilo, as duas cidades. Uma curiosidade – “NOLA” alguns anos mais tarde seria o batismo do debut dos Down, banda fundada por Phill Anselmo e camaradas residentes nas duas cidades. Em 91, um quarteto também de Nova Orleans debutou, os Crowbar, mas nem de longe se compara com a sebosidade exacerbada dos EHG, Crowbar produziu um disco bem polido pro que estava ao seu alcance, reto, trampado.

https://www.youtube.com/watch?v=Y_D_-1kyty8&w

Por todo resto daquela década, poucas bandas se aventuraram naquela nova onda sonora, além do mais, o sludge/doom só passou a ser de maior acesso após o advento da internet, no final da década de 2000, por exemplo. O sludge acabou se fundindo com a pegada stoner/doom, como é o caso das estadunidenses Bongzilla e Weedeater, ambas fundadas em 95 e responsáveis por difundir essa nova onda lamacenta e chapada. Após o boom do stoner/doom nos idos da década de 2010, na sequência foi a vez do boom sludge/doom, talvez é até possível afirmar que o maior número de bandas surgindo é voltado a este nicho específico. Ainda nos 90, o sludge sofreria uma outra mutação com os californianos Neurosis, seguindo um caminho mais afiado na estranheza sonora dos Melvins, carregando um lado HC/punk (sua escola primordial), Neurosis dá o pontapé inicial numa nova onda de roque torto e lesado em 92, em seu 3º disco.

https://www.youtube.com/watch?v=TICmWym9DmU&w

O atual famigerado post-rock/metal é fortemente baseado na obra acima, se os Godflesh vinham “desmetalizando” o metal, os Neurosis surgiram como reforço. No final dos anos 90 e em toda década de 2000, muitas bandas surgiram com uma proposta similar, Isis, Cult of Luna, Minsk, Pelican, etc… até hoje essa nova onda angaria novos adeptos, sofreu mutações diversas, mais pesado, mais atmosférico, mais abissal, mais pós-moderno. É um tipo de sonoridade que se mantém num nicho bem específico por não seguir um rumo tradicional do metal, se tornou um reduto para conceitos pós-modernos musicais e ideológicos. De fato, o chamado sludge é, provavelmente, a sub-vertente que mais vem sofrendo mutações, experimentalismos diversos, de poucas raízes fincadas, de alta transitividade sonora, é o que mais tem de moderno na atual conjuntura do “roque desacelerado”.

Aos que sentirem vontade de mergulhar nos primórdios do sludge/doom, só clicar neste link e fazer uma lamacenta viagem – Sludge/Doom, lamacento e marolento


 

G.Z/SUD

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2 comentários sobre “Doom Metal – por que tão impopular? – Ato II, as peripécias dos anos 90 – Parte II, chapação e sebosidade

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