Doom Metal – por que tão impopular? – Ato II, as peripécias dos anos 90 – Parte I, a melancolia

Anos 90, anos 90, que tempo foi aquele em que o experimentalismo foi tão crescente e, muitas vezes mal interpretado. Década que pariu o famigerado Grunge e causou a revolta de muitos bangers, causa até hoje! Longe do mainstream, o black metal de Bathory e Venom sofreria uma mutação que marcaria o estilo para sempre, o heavy metal já alvo duma roupagem comercial seguiu por um caminho menos tradicional, o thrash metal começa a se fundir com o ainda engatinhante new metal. E o death metal sofreria uma transmutação que perdura até a atualidade como um sub-estilo que expandiu o doom metal para o mundo. O mais incrível dessa História é o fato desse sub-estilo ter seguido por 2 caminhos com uma diferença óbvia, um se manteve podre e desacelerado, o outro, se criou no meio da tristeza e do arrasto. Caso você queira se aprofundar melhor nessa questão é só acessar as matérias; “Death/Doom Metal: a escola bruta” e “A melancolia no Doom Metal, um mergulho nos anos 90“, onde você encontrará várias bandas que seguiram por tais caminhos. Enquanto o Death/Doom se manteve bruto por alguns, outros passaram a injetar uma forte carga de elementos melancólicos, ainda que permanecendo em sua primordial característica como o vocal gutural e guitarras cortantes, mas era só questão de tempo para que uma nova mutação ocorresse. O dedo da Inglaterra uma vez mais produz uma nova onda na música pesada, que diabos tem naquele lugar que quase sempre, aquele povo tá alicerçando alguma coisa nesse tipo de arte? Uma banda chamada Paradise Lost começaria a explorar uma outra forma daquele death/doom (a mídia batizou de doom/death, por ser mais doom do que death, faz parte do espetáculo), então, a primeira demo da banda de doom/death lançada em dezembro de 1988, seria um dos primeiros esboços da nova mutação sonora.

Mas de fato, a primordial fagulha do cerne sonoro dos Paradise Lost e de muita coisa que viria após a empreitada deles, seria afirmada na próxima demo, Frozen Illusion, lançada em agosto de 1989, os trampos de guitarra, a atmosfera obscura e tétrica, nos faz se deparar com estilhaços de Candlemass, Trouble, Celtic Frost, algo assim. Frozzen marca o distanciamento do lado mais rude da ainda fetal carreira dos Paradise.

A continuação dessa história está melhor detalhada neste link – “A melancolia no Doom Metal, um mergulho nos anos 90 – Parte I“. É naquele momento que uma estética lírica e até sonora começa a se desenvolver, de fato, as sonoridades das principais bandas daquela época não eram tão similares, mas comungavam do mesmo princípio; uma mescla de doom metal com death metal com doses tristonhas e letras voltadas principalmente à desolação humana. Diferente da quase apagada onda 80’s do doom metal, os avanços tecnológicos e mercadológicos, além duma nova proposta sonora, foram alavancados por gravadoras que resolveram investir naquele tipo de som. Como é o caso da gravadora inglesa Peaceville, anteriormente voltada ao rolê punk, resolveu mergulhar naquele universo ainda em formação, foi responsável por financiar os debuts da tríade inglesa (P. Lost, Anathema e MDB), seguindo durante um tempo com ela. Outro fator que contribui fortemente para o desenrolar do novo sub-estilo foi a produção de video-clipes e a ascensão da MTV, quem é de 90 pra trás sabe da importância disso e das VHS gravadas com a programação da extinta TV. Paradise Lost seria agraciado com 2 clipes duma vez só, duas faixas do seu 3º disco, o Shades of God, lançado em julho de 92.

Já sacramentado o que seria esse tal de “doom/death”, ainda não tão carregado de melancolia e romantismo. Além dos Paradise, os Amorphis, Anathema, Tiamat e My Dying Bride também produziram clipes.

Como é sabido, tais bandas após se estabeleceram num nicho específico, continuaram experimentando suas sonoridades, até que em meados dos 90, todas aquelas bandas mais conhecidas mostravam novas mutações sonoras. Ainda na Europa, bandas como The Gathering e The 3rd and the Mortal, naquele ínterim, chegavam com uma proposta sonora diferenciada, mais melancólica e com o adição de vocal feminino, The Gathering flertando gutural com vocal feminino, 3rd, apenas com vocal feminino, sem esquecer dos noruegueses Theatre of Tragedy, que debutaram em 95. É a partir deste momento que as estéticas se chocam, vão se aglutinando de uma forma desregrada. As 3 bandas não deixaram de ir de encontro ao mais comercial com o tempo. Do outro lado do Atlântico, 4 almas sebosas estavam criando um som único, carregado pelo arrasto e uma melancolia gótica, vampírica, como ficaram famosos na época, os Type O Negative e seu Blood Kisses (1993). Eram explícitas as novas fusões sonoras que o doom metal vinha sofrendo, isso acabou apagando ainda mais o passado mais tradicional cravado nos anos 80. Agora, o “doom metal” também passa a ter uma estética visual, baseada no preto, na morte, na figura feminina, no medieval, no movimento gótico.

É exatamente nesse momento que uma confusão total é criada mundo a fora, bandas emergentes figurando em revistas, em canais televisivos de música e rádios. Assim, o doom metal foi estereotipado como uma vertente do metal baseada na tristeza, depressão, no goticismo, um som melódico e desacelerado, os vocais metálicos de outrora, agora são guturais ou aquele limpo na pegada gótica, além do lírico feminino. Com mais investimento e maior espaço nas mídias, todo aquele produto da Europa central e o material dos TON é exportado pro mundo, licenciado em vários países. Inclusive, o tipo de roque lerdo que melhor se desenvolveu por aqui foi exatamente o descrito até aqui, bandas que mergulharam na fonte da tríade inglesa e na tríade nórdica, um som pra baixo, carregado, um culto à tristeza. Essa questão acabou inferindo diretamente numa ótica quase absoluta da forma de executar doom metal, também, o público brasileiro, em sua maioria, acatou como forma primordial esse molde dos anos 90. Isso aconteceu comigo, ainda num tempo de difícil acesso à informação, acostumado a ouvir bandas mais melosas (uns 15 anos atrás), quando fui descobrir a verdadeira história do doom metal, fiquei meio pasmo… Lembro duma vez num buteco, um camarada aplicou um play dos Las Cruces dando a letra: “galera, isso aí é doom metal!” – eu estranhei de mais, aquele som pesado e sabbathico não condizia com a minha noção de doom metal. A escassez de bandas nacionais numa pegada tradicional (praticamente nula), o fácil acesso às bandas mais comerciais dos anos 90, dificultou pra muita gente o ato de mergulhar profundamente nas formas mais primitivas de se executar roque lerdo. As poucas bandas nacionais que se aventuraram no doom metal nos anos 90 e conseguiram gravar um disco, talharam sua música no molde europeu da escola tristonha. Bandas como Serpent Rise, Mythological Cold Towers, Eternal Sorrow, Pentacrostic, Genocídio (banda de death metal que teve uma fase mais arrastada), são exemplos de doom metal brasileiro feito nos 90.

Pra encerrar essa primeira metade dos anos 90, mergulharemos no início da história de uma mutação do roque desacelerado que vem ganhando um bom numero de adeptos ultimamente, mesmo sendo uma sub-vertente nada fácil de assimilar. Os amantes de funeral doom metal sabem muito bem da força que o sub-estilo tem em solo russo e arredores da extinta U.R.S.S., diferente do que alguns, talvez, pensem, não foram os finlandeses Thergotton que “criaram” tal forma sonora, 3 anos antes do debut (e único disco) deles, um trio de Moscou lançou o que pode ser considerado o 1º disco de funeral doom metal da história, os Вой (Voj), além duma sonoridade inédita, optaram por cantar em língua pátria. Eu sinceramente não faço ideia se isso tem alguma ligação com o alto número de bandas nessa pegada lá naquela região, em minhas lembranças, consta que muitas bandas daqueles lados apreciam o lado mais tristonho da coisa.

Mas como a história quase nunca é justa, os Voj são mais uma curiosidade do que qualquer outra coisa, sendo os Thergotton e, principalmente, seus conterrâneos Skepticism (banda que ainda está ativa), considerados os pioneiros de tal sonoridade. O cerne do funeral doom dos primórdios era baseado na estranheza sonora, forte investimento em peso e desaceleração, além dos teclados impregnados de desolação, é admirável a coragem daquelas bandas do início dos 90, fazendo uma ponte, fica menos complexo de entender o porquê de suas raízes terem sido fincadas na Rússia e Finlândia, lugares de clima extremamente frio e introspectivo. Outro fator marcante, além de todo o arrasto, drama potencializado, as faixas costumam ser longas, quase que uma regra ultrapassar os 10 minutos. Claro que o tempo foi realizando suas mutações corriqueiras, o funeralzão de outrora feio, agora é carregado por uma atmosfera macia, de uma melancolia sutil, apesar da alta densidade sentimental, que deveras sem isso, descaracterizaria o sub-estilo, já não é mais “obrigatório” aquele vocal ultra-gutural e medonho, onde temos a aplicação da voz masculina limpa, talvez eu esteja enganado, mas os também finlandeses Shape of Despair foram os primeiros a incluir uma adocicada voz feminina, além das suaves atmosferas de teclado, mas isso só aconteceu em 2000, e, ainda não é hora de falar sobre isso. O funeral doom desenvolveu uma estética visual até que sutil, as bandas se preocupam em manter um visual preto e semblantes tristes (regra geral essa), obviamente sincero em sua rotulagem, seria ridículo se meter a executar esse tipo de som e não tratar de assuntos que não orbitem sobre a morte, a solidão, o abandono, a desolação, é um conjunto bem honesto, características bem estabelecidas a qualquer um que se aproxime afim de conhecê-lo melhor, por mais que seja de difícil apreciação pela maior parte dos bangers e afins.

Na 2ª metade dos 90, as mutações foram ainda mais exacerbadas, algumas beiraram o ridículo, mais confusão sobre rumos sonoros, ou “cenas”, mas isso vai ficar pra 2ª parte deste 2º ato do “Doom Metal, por que tão impopular?”


 

G.Z/SUD

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