Metal Maldito

Como já demonstrado em “Doom Metal – por que tão impopular?”, a SUD trará algumas reflexões baseadas em impressões individuais, não temos a proposta de criar um debate, até porque sabemos que isso não resolveria nada, mas toda reflexão sobre o tema será bem-vinda por aqui. Foi então que Raphael Labore, membro da desativada banda Labore Lunae, se sentiu atraído a contribuir com esta feita, Raphael traz uma ótica baseada em uma visão acadêmica, além de claramente tecer seus argumentos como um apreciador de música que não se prende à superfície. Mergulhem no que ele tem a nos apontar.


Por Raphael Labore

“A impopularidade do Doom-Metal é uma característica intrínseca do mesmo, inclusive necessária, talvez um dos grandes pontos comuns do gênero, e isso me parece totalmente coerente e positivo.

O “doom” se apresenta como estilo seminal, ou até mesmo fundante do metal, como uma espécie ancestral primitiva, um dos primeiros galhos de uma árvore filogenética (evolutiva). Dizem que o estilo aparece junto com o Heavy-Metal, e é evidente que ocorreu um distanciamento entre o heavy-metal tradicional e o doom-metal ao longo do tempo. O doom fundamental se diferenciou pelo vínculo estético mais ligado ao oculto e ao místico, à fantasia e reflexões filosóficas, além do cadenciamento mais lento e, muitas vezes, melancólico de suas músicas.

Tudo bem, no fundo tudo é metal, mas o doom se distanciou muito mesmo do metal de forma geral. O metal evoluiu para diversos estilos, todos fundamentados nas características da agressividade sonora, violência simbólica, músicas rápidas, pesadas, mas infelizmente trazendo letras frequentemente repetitivas e desconsideráveis (algumas exceções muito boas). O doom por sua vez manteve como característica basilar essa diferenciação em relação ao metal tradicional, ele não se encaixa muito bem na estética normal do metal (quando digo estética me refiro a estética visual, sonora, simbólica e lírica), aparecendo, muitas vezes como o anti-metal (pois nega as características convencionalmente atribuídas e procuradas pelos fãs de metal tradicional). Isso tanto é verdade que nos anos 90, qualquer banda de metal que demonstrasse características incompatíveis às do metal tradicional eram chamadas de doom, qualquer banda que experimentasse e não fosse rápida era automaticamente “doom” no BR.

É nos anos 90 que o doom abraça essa característica e as bandas do estilo passam a experimentar loucamente, misturam a estética do doom com a estética folclórica, industrial, gótica, pop, black-metal, death-metal, uma verdadeira quimera, eita bicho esquisito, difícil de ser definido. O death-doom ganha grande espaço no Brasil, a escola inglesa do estilo influenciou as primeiras bandas de “doom” do país, que seguiam a estética dos ingleses tencionando-a e experimentando, como o gênero já havia mostrado pedir.

Mas, voltando a ideia do doom realizar uma espécie de negação do metal, isso é fácil de observar ao verificar o desenvolvimento do death-doom na Inglaterra do final dos anos 80. A primeira do subgênero a aparecer por lá foi o Paradise lost, que incorpora elementos do death-metal mas nega a velocidade, a violência estética da época, aborda temas diferentes dos usuais naquele momento, etc. Logo depois vem a Cathedral, outra importante banda fudantes do estilo. Lee Dorrian, o malucão da Cathedral, foi membro da Napalm Death na segunda metade dos anos 80 tendo participado como vocalista e letrista dos primeiros álbuns da banda (que é uma das mais relevantes da história da música extrema), a necessidade de experimentar fora da estética do metal da época passa a o incomodar, ele queria colocar influencias de Black Sabbath em sua música, riffs lentos e arrastados, tocar o que gostava, se divertir novamente. Frente a isso, o manolo cansou de fazer o som proposto pelo Napalm (que estava se popularizando rapidamente, com várias bandas aderindo ao grindocre e/ou death-metal) e decidiu se entregar a produção musical incorporando influencias diretas das bandas seminais do doom, principalmente Black Sabbath e Trouble (como ele mesmo afirma em entrevistas). O cara pegou a experiência estética da música extrema rápida com a Napalm e resolveu fazer um som tão perturbador quanto o deles, mas lento, pesado, denso, pra baixo. A Cathedral soma forças com a Paradise Lost e o death-doom se consolida na Inglaterra, um novo galho na árvore evolutiva estava firme, vivo, e começou a dar novas florações (estou botânico hj). Aparecem as Anhathema e My Dying Bride da vida, que se fundamentaram da mesma receita. Com isso, a quimera ganha uma certa forma identificável, o death-doom vira o maior representante do gênero e é responsável pela popularização do mesmo em nível mundial.

Mesmo assim, a genética mutante do gênero despertou em determinado momento, desencadeando a continuidade de seu errante processo evolutivo, ainda que tivessem alcançado uma considerável popularidade, que me parece ter se valido do contexto de certa maturidade e padronização do death-doom nos anos 90. Esse momento na evolução do estilo é muito interessante e mostra como de fato uma das principais características do doom é a transgressão do que já está posto, a continuidade da negação estética do metal e do próprio estilo. Todos lembram o que essa galera inglesa do death-doom experimentou nos anos 90, o lance foi intenso, libertário, oxigenador, vários fãs não souberam lidar com isso, não estavam preparados para essa essência oculta do doom.

Passado esse momento, o processo de evolução do doom continuou entre experimentações, busca por padronizações, apropriações de ideias diversas e até mesmo a sua contemporânea (tentativa de) apropriação do estilo pelo mercado na forma de bandas de stoner-doom, que de carona fizeram o doom ganhar visibilidade novamente. Vejam que o doom foi incorporado a outro estilo como já havia ocorrido anteriormente pelo death-metal, black-metal, gótico, etc. Esse fenômeno ocorre exatamente pela natureza disforme do estilo, por sua característica lentidão e peso, que quando bem utilizadas nos estilos velozes de metal ajudam a fazer um contraponto, dar um clima, etc. Incorporar elementos do doom em outros tipos de metal é uma atitude transgressora e corajosa, difícil de realizar e de ser aceito.

Minha revisão histórica vai até aí, foi simplificada e arbitrária, tiveram outros galhos, brotações e a evolução até e esse ponto e depois dele, a história foi bem mais complexa, muita coisa aconteceu no desenvolvimento desse gênero musical. O ponto é que os pontos abordados são suficientes para o objetivo desse texto, que é apresentar algumas reflexões acerca do desenvolvimento e impopularidade relativa do doom. Pois bem, o doom segue como esse bicho mutante disforme, cada hora é uma coisa, ele é autofágico, se destrói, se reconstrói, faz a negação estética do metal tradicional e do próprio doom em seu processo evolutivo… Essa dificuldade de compreender o doom, sua disformidade e sua relação de negação com a estética do metal o coloca em uma posição permanente de estilo underground, é underground pq é muito extremo e complexo para ser popular, e tb é underground dentro da própria “cena” underground, pois se apresenta como estilo que nega características normalmente apreciadas pelo público do metal underground (eita, quando underground). Outro ponto interessante e que corrobora com essa natureza peculiar do estilo é que é muito grande o número de admiradores do doom-metal que não gostam de outros estilos underground de metal ou até mesmo admiradores de doom-metal que não gostam de metal de uma forma geral, isso ocorre exatamente pelos experimentalismos do estilo e por não ser tão claramente vinculado esteticamente aos estilos mais populares de música extrema, o doom pode ser apreciado por si só como arte, não é necessário ser um iniciado, só prestar atenção, apreciar e refletir.

Esses são alguns motivos que me levam a considerar o doom-metal como um gênero musical maldito, pois é de fato mal-dito: As pessoas o maldizem, não entendem, acham ruim, chamam seus admiradores de posers, etc. exatamente por não se enquadrar no que está legitimado convencionalmente pelo público do metal. O Doom-Metal sempre fez o que as chamadas bandas de pós-metal estão propondo atualmente (negação e superação de determinados elementos estéticos do metal). Não é fácil ser fã de doom, tem que pensar, entender. Não é fácil fazer doom, a falta de padronização e de características mais populares do metal restringem sua aceitação pelo público em geral. Por outro lado, ao meu ver o doom é um dos gêneros musicais, e um dos poucos do metal, que podem ser considerados como formas artísticas revolucionárias.

A arte já foi muito estudada desde a antiguidade, alguns pensadores modernos como Marcuse e Lefebvre se aprofundaram no estudo da arte e sua relação com a sociedade, identificaram os tipos de arte e observaram como elas constituem a estrutura social. Para Marcuse a arte teria dois papeis fundamentais; 1- em um deles, a arte causaria deleite e conforto, uma espécie de fuga prazerosa da dura realidade, no segundo papel 2- a arte revolucionária seria a forma mais eficiente de confrontar tudo que já está dado, negar as convenções, apresentar coisas que seriam absurdas se expostas de forma não-artística. Para esses pensadores essa confrontação artística é necessária para propor à sociedade interpretações alternativas da realidade, abrindo espaço para mudanças concretas (estou certo que Marcuse adoraria Napalm Death, Eletric Wizard e Racionais, por exemplo). Para Marcuse, Lefebrve e até mesmo Nietzsche (ele aborda a arte e a música em sua obra inaugural), a arte transgressora e revolucionária é fundamental para a evolução social, é através dela que se pode realizar melhorias éticas nas relações sociais, pois através dela é possível agredir, desconstruir, experimentar outras visões de mundo e lógicas. É na arte revolucionária que a violência simbólica realmente ocorre, até mesmo contra as formas de violência simbólica que já existiram e foram apropriadas pelo senso comum como não mais violentas. Estamos falando do tensionamento dos valores sociais através da arte. Doom-Metal é maldito, não é conservador, não é popular, não é esteticamente padronizado, não é fácil, é o underground vivo se transformando em um processo contínuo de danação.

OBS. Existem outros estilos “malditos” (vide o verdadeiro Black Metal), e mesmo dentro dos estilos mais populares existem formas de arte revolucionárias, aliás, existe arte revolucionária de todo tipo, é que no doom essa característica aparece indissociavelmente de sua expressão, até quando o doom é pop ele é quimérico, revolucionário e complicado de apreender.”

Referencias:
LEFEBVRE, H. – A vida cotidiana no mundo moderno.
MARCUSE, H. –O Homem Unidimensional – Estudos da Ideologia da Sociedade Industrial Avançada.
NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia no espírito da música.
SANTOS, R. J.; FERNANDES, P. I. B. As possibilidades da revolução cultural: um paralelo entre as concepções de Herbert Marcuse e Henri Lefebvre.1


G.Z/SUD

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