Os vocais femininos da década de setenta: Parte II

Continuando essa lista de bandas com vocais femininos, desta vez vou falar um pouco do Atlantis. Na lista anterior, eu já tinha falado da Inga Rumpf e de novo ela é a mina da vez no grupo. Falei da sua participação incrível no Frumpy, agora vamos entender outros caminhos que levaram a chegar no Atlantis e encarar novas sonoridades. O Atlantis é uma banda formada a partir da separação do Frumpy em 1972, a formação ficou organizada com a Inga nos vocais, o tecladista Kravetz, Karl-Heinz Schott no baixo, Frank Diez na guitarra e Curt Cress na bateria. O grupo passou por diversas formações, com direito a saída e volta de membros originais. Mesmo com uma proposta parecida com a do Frumpy, o Atlantis bebeu muito na fonte da música norte-americana, deixando seu som embalado por muito swing e ritmos vindos do jazz, funk e soul.

O primeiro disco dessa galera saiu em 1972 pelo famoso selo espiral da Vertigo, autointitulado e com muita identidade, Atlantis nem parecia um disco de uma banda alemã. Dou destaque para as faixas Rock n’ roll Preacher e a faixa Get Up que abre o álbum de maneira majestosa. Com direito a vários instrumentos de percussão, piano e órgão.  Vale lembrar que a participação de Inga vai além dos vocais, a cantora também fazia as composições do grupo e quase todas letras do disco são de sua autoria. Mulherão, hein?

Já no segundo álbum, o Atlantis mergulha no fusion e se coloca como uma banda dos EUA em diversos aspectos. Tanto pelas composições quanto pela sonoridade. O álbum It’s Getting Better (1973) chamou atenção dos artistas dos EUA e fez com que a banda saísse em turnê por volta de 1974 com nomes como Aerosmith e o Lynyrd Skynyrd. O grupo estava se destacando como uma banda de grande relevância fora do eixo EUA-Inglaterra. O disco possui composições bem equilibradas, passando das baladas de soul até aquele som feito para dançar, com direito a órgão e percussão no fundo e um coro acompanhando os refrães cantados por Inga. Um dos sons desse álbum que mais tem essa pegada incrível é o Days of Giving, com direito a Gaspar Lawal mandando ver na percussão e Kravetz empolgado no Hammond.

A banda lançou mais quatro álbuns, algumas vezes com uma pegada mais hard rock, mas sempre seguindo praticamente a mesma fórmula para todos. O álbum Ooh, Baby (1974) possui a mesma sonoridade, eu dou destaque para uma faixa que quem ouviria pela primeira vez jamais imaginaria que é uma banda alemã que toca. Mr. Bigshot poderia ser parte de um disco da Parlet ou da Betty Davis.

Algumas vezes pendiam mais para o lado do progressivo e outras para o lado do funk, mas o equilíbrio entre as influências foi o maior traço da inventividade da banda no período. Talvez, o Atlantis não tenha garantido sua importância nesse cenário devido ao tipo de som que fazia, pois já existiam grupos com a mesma sonoridade, o que torna eles diferentes são as referências locais e o fato de ser uma banda alemã arriscando um som que estava um tanto longe das referências do rock europeu.

Infelizmente, o Atlantis se separou em 1976 e das gravações guardadas eles conseguiram lançar o álbum póstumo chamado Top of the Bill em 1978. Inga seguiu sua carreira como cantora e compositora nos anos seguintes, compondo músicas em alemão em seu álbum solo Second Hand Mädchen (1975) e chegando a ser palestrante de música na Universidade de música de Hamburgo em meados dos anos 80.


Com um potencial vocal incrível, a Linda Hoyle podia cantar em qualquer banda que quisesse. Porém, o Affinity não recebeu o reconhecimento que merecia. Mesmo tendo nascido naquela efervescência britânica das décadas de 60 e 70, a sua passagem foi um fenômeno que infelizmente durou pouco. Linda, diferentemente das outras minas citadas na lista, não seguiu carreira de cantora. Preferiu viver uma vida simples como professora de inglês e terapeuta. É por isso que vou falar não apenas do Affinity, mas também do seu álbum solo lançado em 71. O grupo formado por Linda nos vocais, Mo Foster no baixo, o guitarrista Mike Jupp, nas teclas Lynton Naiff, e bateria com Grant Serpell.

Eles têm apenas um álbum lançado, o Affinity lançado em 1970. O álbum possui composições de Linda Hoyle, covers dos Beatles e de Bob Dylan. Partindo para uma vertente mais jazzística do prog, o grupo contou com a ajuda de John Paul Jones do Led Zeppelin para arranjar as cordas do álbum e Chris Hughes nos arranjos dos metais. Affinity é um disco muito bem organizado para ser o primeiro álbum, é clara a experiência musical dos membros do grupo. Lançado em 70, o álbum ainda está mergulhado na psicodelia do final dos anos 60 e possui composições mais viajadas, mais jazzísticas e até mesmo baladinhas que poderiam nos levar pra um som na pegada do Jefferson Airplane.  Dou destaque para duas faixas que considero importantes para conseguir entender a ideia que essa galera queria passar. A faixa de abertura já vale o disco inteiro, o sax e o baixo dão o ar da graça enquanto o órgão surge no fundo e faz um conjunto incrível. I Am and So Are You é um marco do grupo.

Também não posso esquecer de Night Flight que mata a pau com a percussão e órgão, além das passagens muito bem executadas entre os instrumentos

Após esse álbum o grupo encerrou suas atividades, exaustão de Linda com o ritmo das turnês, término do namoro com um dos membros foram o motor que acelerou esse fim. Linda saiu em carreira solo e lançou um álbum solo, chamado de Pieces of Me (1971). É um dos álbuns mais raros do selo da Vertigo, pois não teve muitas cópias. Tem a importante participação de Karl Jenkins (Soft Machine, Nucleus) nas composições e no comando das teclas do play. É um álbum muito bonito, onde Linda passeia e explora melhor a sua capacidade musical e entonação vocal. Gosto muito do cover da Nina Simone, a bluseira Backlash Blues abre o álbum e parece mais uma canja despretensiosa de Linda em um pequeno palco mal iluminado. Além da faixa título, a Pieces of Me onde Chris Spedding fuzila a nós todos que ouvimos com o seu fuzz primitivo típico dos anos 70.

Linda continuou tocando e compondo ao longo dos anos, mas priorizou sua vida comum como terapeuta e professora no Canadá. Sua última apresentação musical foi em 2011 na comemoração do 50º aniversário da Universidade de Sussex na Inglaterra.


A última banda dessa lista é o grupo também inglês Catapilla, é considerado por muitos como um grupo de jazz experimental do que de progressivo. O grupo é tão virtuoso que foi adotado pelo empresário do Black Sabbath, o Patrick Meehan. A mina que comanda os vocais é a Anna Meek, sua voz parece que ecoa de um sonho profundo e inconsciente que chega a ser maldita. Em alguns momentos ela grita e parece se lamentar nas músicas. O que para alguns pode ser um problema para sacar o som. Porém, esses elementos criam uma atmosfera sombria e hipnótica nos dois discos lançados pelo grupo. Viagem sonora é com essa galera. A formação é organizada com Graham Wilson na guitarra, Robert Calvert (não é o mesmo do Hawkwind) no sax tenor e soprano, Hugh Eaglestone também no sax tenor, Thierry Reinhardt na flauta e clarinete, Dave Taylor no baixo e Malcolm Frith na bateria. Catapilla tem uma formação cheia de músicos incríveis e de ótimas referências em suas composições. Seus discos Catapilla (1971) e o segundo Changes (1972) foram lançados pelo selo da Vertigo também.

O primeiro álbum é aberto com uma música de quinze minutos, a faixa Naked Death dá o recado do que a banda está proposta a fazer, o saxofone do Robert Calvert é enlouquecedor e junto com a guitarra de Graham Wilson fazem aquela fritação jazzística enquanto Anna Meek canta de forma doce e agressiva. O riff desse som é ótimo e  característico de uma banda dos anos 70. A faixa final com certeza não fica pra trás e ocupa todo lado b do LP porque tem vinte e quatro minutos. Embryonic Fusion traz mais uma vez a sensação de que estamos em um sonho profundo, pois abusa dos instrumentais e a flauta tocada por Thierry é incrível. É aquele tipo de som que quem curte geralmente coloca para tocar e fica deitado viajando. Vale a pena a audição.

Já em 1972, no segundo álbum – que segue a mesma linha do primeiro, mas é mais bem executado e hipnótico. Changes é meu disco favorito dessa galera. Anna com sua voz soporífera nos transporta para outra dimensão, junto com Calvert e seu sax. A faixa Charing Cross é ótima, tem ótimas progressões e é um som típico do prog fusion, jazzístico, experimental. Com direito a criação de etapas musicais com a entrada e saídas dos instrumentos, alternando entre a guitarra e o sax. Tudo isso enquanto Anna Meek sussurra o nome da música em nossos ouvidos.

Em It Could Only Happen to Me a banda se transforma em um grupo de jazz, quem comanda o som são os instrumentos de sopro e a bateria. Um som instrumental e atmosférico que fecha o disco majestosamente. De todas as bandas citadas aqui nessa lista, o Catapilla com certeza é a mais jazzística, passando do flerte com o gênero pra realmente incorporar ele no som, uma proposta parecida com o que o Nucleus tentou fazer. Um grupo com uma capacidade experimental muito grande para o período. Depois desse disco infelizmente eles se separaram, mas a obra ficou para vida e ainda bem que a gente pode sacar e falar deles atualmente.

 

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