RESENHA: Kadavar – Florianópolis, 2/3/2018

Kadavar-promo-picture

 

Com paciência se vai longe. Com uma boa dose, até mesmo à Alemanha, ainda que seja em território brasileiro. E não, não falo da zona de colonização alemã do Estado, Brusque, Blumenau ou Joinville. Aqui, o buraco é mais embaixo. Ou mais para o alto, se tomarmos 2/3 do território alemão que se fez presente pela segunda vez em Florianópolis no começo de Março. Com realização mais uma vez exitosa da produtora Dissonante, que vem trazendo para o território de Florianópolis as acachapantes produções nacionais do selo Abraxas, a Alemanha (e claro, França) mostrou seu poder de fogo pela segunda vez em um espaço que já recebeu suecos, americanos, ucranianos e até residentes da longínqua Islândia. Os culpados? A banda Kadavar. O crime? Um fuzilamento sonoro.

Mostrando sua sonoridade alucinante pela primeira vez em 2015 na capital catarinense, o duo alemão formado por Christoph Lindemann e Christoph Bartelt, mais o francês Simon Bouteloup, se refestelou em sua exibição do mais sincero e apaixonado revival dos anos 60 e 70, como numa sabática dança cremosa de zepelins de chumbo. E foi uma impiedosa saraivada de retumbantes riffs aliada a uma demonstração irrevogável de feeling e afinação. O trio, na divulgação de seu então mais recente album “Berlin” (2015), certamente fez a festa de muita gente ao realizar sua primeira turnê pela América do Sul sob direção da produtora carioca Abraxas. Hoje sob a tutela do poderoso selo Nuclear Blast e tendo percorrido um caminho digníssimo através de incontáveis giros e grandes festivais, a banda detonou o palco do Célula Showcase com toda sua maestria, alicerçada em clássico power trio formado por um guitarrista/vocalista que sabe fincar o pé no chão e tomar a dianteira da orquestra com majestade, por um baixista um tanto desengonçado que é capaz de estralar bonito o chicote com seu grave e por um carismático baterista com olhar alucinado que está a ponto de ser processado pelo seu instrumento por tamanha violência. A perfeita combinação da visceralidade e da técnica.

Dessa vez, a banda veio no arrasto da divulgação de seu novo trabalho, o soturno “Rough Times”, lançado em 2017 pela Nuclear Blast novamente. Com uma miscelânea de tétricas faixas densas e momentos mais na pegada de seu clássico Hard Rock de faixas como “Lord of the Sky” e “Doomsday Machine”, o album apresenta uma banda trilhando novas sendas e arriscando algumas ousadias com sua sonoridade. E foi esse material que conferimos pela primeira vez por aqui, nessa segunda passagem dos caras. Mas por pontos, primeiro a abertura do espetáculo: Monte Resina. Formada na cidade de Florianopolis, a banda instrumental formada por Paulo Douglas, Cainã e Vinicius fez as honras da casa de uma forma corretíssima. Falar da noite que abrigou Kadavar pela segunda vez em Florianopolis sem ressaltar todos os méritos desse trio nativo seria um desperdício de palavras e tempo. Divulgando seu recente album de estréia, “Aluado Bulimor”, o trio exibe um rock instrumental do mais alto calibre, que por vezes beira o absurdo do ruído e consegue  imprimir um sentimento de exaltação e espanto muito bem-vindos. Levada brutal de batera, faixas no geral curtas, precisas e que apresentam um peso fora do comum, elemento ressaltado na barulhenta apresentação dos caras. “Aluado” se uniu a faixas do primeiro EP dos caras, lançado já há um tempinho, e acendeu o pavio que culminaria na explosão com os bárbaros retrô.

Após uns 40 minutos de apresentação dos residentes, estava no palco a banda Kadavar em seu retorno triunfal à cidade após 2 anos e pouco. Um tempo que, levando em conta a mais recente onda de eventos do gênero na cidade, pode ter parecido longo para os fãs da banda mas que na verdade representa uma constância maior de shows desse porte por aqui, graças a esforços locais e nacionais de pessoas que curtem o gênero e se apresentam para o serviço na hora de armar o esquema. E esses dois anos e pouco fizeram muito bem aos caras! Mais afiados que nunca, Lupus, Tiger e Dragon, nomes de “guerra” dos sujeitos, executaram uma apresentação aguerrida, apesar de alguns pequenos lapsos com a questão do som do vocal no show. O baixo estralou o chicote como de costume, Tiger Bartelt segue sendo aquele monstruoso batera com braços de aço e cara de insano e Dragon, o francês, no alto de seus 2 metros e molejo estranho, mostrou muito serviço, como o esperado. A sincronia e afinação dos três no palco é um elemento que ressoa acima de tudo, ainda. “Hinos” dos caras, como Doomsday Machine (“Abra Kadavar”, 2013) e Black Sun (“Kadavar, 2012), estavam figurando no setlist e seguem máquinas de guerra ao vivo. Petardos furiosos, ícones do arrasto na discografia dos caras. Novas faixas, como Into the Wormhole, mostraram pela primeira vez serviço nos palcos para os florianopolitanos e fizeram bonito, com uma vibe arrastada e densa característica do novo album. Junto a elas, sons como “Forgotten Past”, “Pale Blue Eyes”, “All Our Thoughts” e um delicioso encerramento com “Come Back Life”. Um setlist bem montado, variado e que pareceu buscar o mais conciso de cada fase e trabalho dos caras. Um Kadavar ainda mais maduro e afinado foi o que se apresentou ao público do Celula Showcase em 2 de Março, deixando cada vez mais a sensação de estarmos vendo um grande nome se formar, se não no patamar de renome e legado de nomes como Black Sabbath e Led Zeppelin, ao menos no nível de uma banda capaz de ser lembrada daqui há uns bons anos por toda sua capacidade, dentro e fora do estúdio, com um “ao vivo” que merece todos os elogios possíveis.

 


 

SETLIST

Skeleton Blues
Doomsday Machine
Pale Blue Eyes
Into the Wormhole
Die Baby Die
Living in Your Head
The Old Man
Black Sun
Forgotten Past
Purple Sage
 
Bis:
Thousand Miles Away From Home
All Our Thoughts

Come Back Life 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s