Os vocais femininos da década de setenta: Parte I

Nos anos setenta rola uma explosão de bandas de rock progressivo e suas vertentes, é aquele período que a guerra do Vietnã ainda rolava, mas o movimento hippie estava em seus últimos suspiros. No final dos anos 60 e começo dos 70 o mercado para bandas de rock estava favorável, pois era formado como cenário de “música pop” do período. Daí que surgiram muitas bandas que conhecemos hoje como clássicos. Além de todo aquele contexto de expansão da consciência, drogas, inclusão de vários gêneros musicais e experimentações nas composições, amor livre e tudo aquilo que já estamos cansados de saber – e que veio de herança da década anterior.

Nessa história, sabemos de várias bandas incríveis e consagradas, bandas incríveis e undergrounds. Entretanto, todo esse cenário tinha predominância de homens e o que eu venho mostrar hoje é a participação feminina no som chapado da década de setenta, seja prog, heavy prog ou blues rock, na primeira parte dessa matéria irei falar de mulheres que arregaçaram as mangas e foram verdadeiras “frontwomans” de grupos formados por homens.

Começo mostrando para vocês o poderosíssimo Babe Ruth, banda de Hetfield, Inglaterra, formada em 1971 e fronteada pela maravilhosa Jenny Haan.  Além dela, contava também com Alan Sherlock que foi guitarrista, percursionista, faz-de-tudo um-pouco e fundador da banda, Dave Punshon no piano, Dave Hewitt era baixista e vocalista e Dick Powell na bateria. A banda contou com uma grande transição de membros durante sua carreira, mas a formação original era essa citada.

Seu debut, chamado de First Base foi lançado em 1972  e é um álbum indispensável para quem gosta de heavy prog, porque equilibra os rifões de guitarra, linhas de baixo bem elaboradas com base no funk e um piano bem acompanhado do órgão, sem falar da voz potente de Jenny que entra rasgando os nossos ouvidos. O álbum obteve relativo sucesso na Europa, EUA e Canadá, destacando-se a música Wells Fargo que abre o disco de forma matadora e The Mexican que virou tema para o filme For a Few Dollars More – e pasmem, foi sampleada diversas vezes, inclusive pelo Afrika Bambataa em seu hit Planet Rock. O álbum também conta com um cover matador de King Kong, música do Frank Zappa, onde a banda coloca o pé no jazz e mostra as diversas influências que reuniam no momento.

Babe Ruth possui seis álbuns de estúdio, passando pela influência de música espanhola, como em seu disco Amar Caballero, lançado em 1973 e a soul music que dá as caras no álbum Babe Ruth de 1975, onde a banda tira um som incrível do Curtis Mayfield. O último disco da banda chamado Que Pasa, foi lançado em 2007 deu a oportunidade da banda voltar à ativa e fazer uma série de shows para sua divulgação.


A segunda banda que vou falar aqui chama-se Ruphus e veio direto de Oslo. A banda foi formada em 1971 e compõe o cenário do prog norueguês junto com bandas como Popol Ace (Popol Vuh), Aunt Mary e Titanic. Mais uma vez o vocal feminino toma a frente, na sua primeira formação é a Gudny Spaas que demonstra toda sua intensidade no grupo, ao lado da guitarra de Hans Peter Danielson e Hakon Graf nas teclas que fazem uma harmonia perfeita entre aquele som agressivo com a pegada hard rock com os elementos de prog clássico. O primeiro álbum chamado Born New Day (1973) é o de maior relevância na carreira do grupo, sendo muito apreciado pelos fãs de heavy-prog. O álbum possui melodias bem estruturadas, algumas vezes acompanhadas por flauta e saxofone, além do órgão que corre solto no fundo em quase todas as faixas do disco. Dou destaque para a primeira faixa que tem um riff que com certeza fica na cabeça e é onde Gudny demonstra seu alcance como cantora:

O Ruphus possui outros cinco discos, no meio da sua carreira eles vão adquirindo novas sonoridades, mudando para uma pegada de prog mais sinfônico, baseado em um maior trabalho com as teclas e flauta, além dos vocais mais harmônicos. Há três álbuns de referência para entender melhor o caminho percorrido pela banda. O Ranshart (1974) ainda segue uma linha parecida com o primeiro álbum, mas é um álbum mais progressivo na linha do Yes e Focus. Enquanto em Inner Voice (1977) as influências de jazz e funk formam a nova sonoridade do grupo, há maior ênfase na bateria, baixo e no Mellotron.

Há um álbum lançado com outra vocalista, o Flying Colors, lançado em 1978. A nova frontwoman do grupo, Sylvi Lillegaard, possui um vocal bem menos agressivo em relação a Gudny Spaas e isso faz com que sua voz harmonize com a nova proposta da banda, que segue abandonando o rock progressivo com influências de hard para lançar-se em uma vertente mais sofisticada, trabalhando com solos de piano bem acompanhados pela voz doce da nova vocalista.


A última banda dessa lista é uma banda bem conhecida, o Frumpy, onde a Inga Rumpf que comanda os vocais. A banda alemã foi formada em 1969 em Hamburgo, depois do fim do grupo The City Preachers que surgiu em 1965. Alguns membros remanescentes do The City Preachers se reuniram e daí o Frumpy lançou-se em 1970 abrindo shows para bandas como Renaissance, Yes e Spooky Tooth. Em seu primeiro álbum All Will be Changed (1970) a galera já mostra que não veio pra perder tempo! O disco é recheado de passagens que lembram improvisos, experimentações com blues rock e jazz. Dou destaque para as faixas Rosalie I, Otium e Rosalie II que são uma verdadeira paulada do tecladista Jean-Jacques Kravetz no nosso juízo, já que esse disco não possui guitarra, a  fritação de Hammond é intensa e as linhas de baixo são maravilhosas. Sem falar da voz rouca de Inga, lembrando a Nico pelo jeito sofisticado de cantar, ao mesmo tempo que tinha o despojamento e potência vocal da Janis Joplin:

O segundo álbum foi batizado de Frumpy 2, segue por uma linha melódica semelhante ao primeiro, o disco foi lançado em 1971 e traz o clássico da banda How the Gypsy Was Born consolidando o grupo como uma referência do krautrock. Frumpy 2 acaba sendo mais experimental do que o primeiro disco, tendo inspirações de música clássica e linhas de baixo mais jazzísticas do que o primeiro álbum, além de também contar com a chegada de Rainer Baumann nas guitarras, deixando o som com mais peso, o que modifica a frequência de solos de órgão no álbum.

Porém, após o álbum By the Way, lançado em 1972, o guitarrista Rainer Baumann deseja sair da banda. O grupo organiza um show de despedida que se transforma em um novo álbum, o póstumo Live (1973) e então tecladista Jean-Jacques Kravetz, junto ao baixista Karl-Heinz Schott e Inga Rumpf formam outro grupo com influências de jazz e soul music chamado Atlantis, que será uma das bandas citadas na próxima lista. O Frumpy retornou na década de 90 e gravou os álbuns Now (1990) e News (1991).

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2 comentários sobre “Os vocais femininos da década de setenta: Parte I

  1. Esse especial é covardia para um pobre viciado/adorador de vozes femininas no roque, especialmente metal e progressivo! Claro que já conheço, há uma porrada de anos, todos os grupos postados, mas não me furtei de re-re-re-ouvir, óbvio. Para não cair em clichês e obviedades, só digo que o Frumpy é um dos grupos mais foda de todo o rock progressivo, fácil. Cliquei nos links e só fui parar após ouvir de novo toda a fase áurea.
    Mulheres cantoras rule and rock!!
    Valeu.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: Os vocais femininos da década de setenta: Parte II – Stoned Union Doomed

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