Type O Negative – O nascimento de uma nova onda de roque gótico – Parte I

Meu primeiro contato com a música dos TON não foi um mar de rosas, dava tão pouca importância que nem lembro qual foi o disco que ouvi, possivelmente na casa d’algum chegado, naquele tempo, eu não sabia muita coisa, não sabia apreciar a música como arte, havia mergulhado numa ideologia corrompida e extremada, certas cegueiras tem cura! Quando fui realmente mergulhar num mundo diferente, uma das primeiras coisas que me apareceu foi os TON, um período em que eu me encontrava em completo tormento, perdido e doente da cabeça, muito mais que hoje… o som deles acabou alimentando o meu tormento, mas o fez menos nocivo, foi então que eu comecei a usar um novo tipo de droga. Type O Negative criou o seu próprio estilo de fazer roque, era o modelo único da escola estadunidense, soube aliar o peso das letras com o da música, soube atrair pela estética visual, pela postura, pela polêmica de quem não tem medo de pensar por si próprio e dizer o que pensa, o gênio de Peter Steele se tornaria mais uma marca registrada da banda.

Petrus Thomas Ratajczyk e seu amigo de infância Josh Silver se juntaram a Louie Beato e John Campos em 1979 nos becos de Nova Iorque (Brooklyn) e deram partida nos Fallout, o que rendeu apenas um single de duas faixas chamado Rock Hard, gravado em 81.

Uma faixa demo que não entrou na conta do single gravada no mesmo 81, mostrava um lado fortemente sabbathico.

Josh passou por uma outra banda chamada Original Sin, também criada no final dos 70, mandava um Hard’n Heavy farofão.

A fase melô durou só o single, Fallout deixa de existir pra que os Carnivore ganhassem vida, a 1ª demo é lançada em 84, na formação: Lord Petrus Steele (v/baixo), Keith Alexander (guitarra) e Louie Beato (bateria).

A impressão é que os Carnivore queriam ser uma espécie de Motorhead ianque. A banda durou 5 anos, lançou 2 discos entre 85 e 87, Peter começou a causar com o seu sarcasmo naquele momento, faixas como “Male Supremacy”, “God is Dead” e “Jesus Hitler” já seriam o suficiente pra causar ódio tanto naquele tempo quanto na atualidade.

A faixa traz um apelo mais meloso, a voz limpa de Peter prenunciaria o que seria feito na posteridade. No mais, os Carnivore não seguiam uma receita restrita ao som na linha da banda do finado Lemmy, havia muito espaço pr’um lado crossover, nas partes mais cadenciadas se nota a lembrança dos TON.

A estética não ficou de lado, beirando o ridículo na veia Manowar mais uma ideia pós apocalíptica pique Mad Max. O fim oficial se deu em 87. Em 89, Peter consegue reunir uma galera; Josh Silver (seu velho chegado assumindo as teclas), Sal Abruscato (na bateria) e Kenny Hickey (guitarra), isso deu origem ao Repulsion que lançou uma demo em 90, demo que seria o debut dos Type O Negative. Peter e Josh se tornariam produtores do seu próprio som, isso deve ter auxiliado na originalidade e liberdade que os caras tinham pra meter o loco nas obras.

Um símbolo foi criado, o que eles chamaram de “sub zero”, foi tatuado pelos 4 caras, posteriormente, se tornou uma forma de identificação da banda no geral. Sub Zero foi cogitado pra ser o novo nome da banda, mas, Type O Negative acabou vencendo e vingando, já ouvi lendas de que o nome teria sido proposto por Peter, ele tava dando uma cagada e costumava folear uma lista telefônica enquanto se aliviava, eis que ele topa um anúncio convidando pessoas com sangue tipo o negativo a doarem sangue, de imediato ele pensou ser um nome que ornava com a proposta. Sub Zero acabou dando treta porque já havia uma banda com esse nome. Também existia uma banda chamada Repulsion, de grindecore, dos anos 80, mas não sei se rolou alguma treta.

Com a demo foi o suficiente pra assinar um contrato com a Roadrunner Records (Roadracer Rec. na época). Slow, Deep and Hard é precedido por uma promo contendo duas faixas, até que em junho de 91 o debut é lançado, a capa continha uma conotação sexual, um corte do que seria o ventre duma mina nua numa imagem tosca esverdeada, nascia também o conceito de Vinland, uma piração de Peter sobre a unificação dos EUA com o Canadá, com sua própria bandeira (que remete a dos nórdicos) nas duas cores que formou a estética da banda, verde e preto.

A mesma demo dos Repulsion, lançada como um disco trazia uma sonoridade bem diferente do que Steele havia praticado, alguma coisa dos Carnivore, dos Fallout, mais um certo apelo obscuro que beirava o gótico. Mesmo não fazendo muito sucesso, a gravadora pediu um disco ao vivo, Peter receberia uma quantia mais que suficiente pra realizar a feita, mas, acabou torrando uma parte em festas e fuleragem, quando se deu conta, não era mais possível entregar o que pediram. Numa jogada de mestre, Petrus e sua trupe gravam um disco em estúdio, aplicam partes que emulam uma plateia, uma plateia insatisfeita que os xingam, latidos, sirenes, garrafas quebradas, uma versão para Hey Joe, com uma letra adaptada por Pedro, novos títulos pras faixas do debut, executadas com formatos diferentes, uma inédita chamada “Are You Afraid?” que soa como um estímulo às pessoas com tendências suicidas e, pra encerrar, uma capa em que a imagem é uma foto do cu de Steele arregaçado, peludo e medonho, fazendo jus ao título: The Origin of the Feces (Not Live at Brighton Beach). No fim das contas, faz muito sentido essa presepada, o disco foi lançado em 92, um ano após a estreia da banda, o play se tornou um marco da meteção de loco. Obviamente que a capa foi sensurada em alguns lugares, o furico foi substituído pela obra The Dance of Death, uma ilustração de Michael Wolgemut (1493).

93 é iniciado com uma promo contendo a “Black no. 1”, “Christian Woman”, “Summer Breeze” e “We Hate Everyone”, todas editadas pra que pudessem serem tocadas na rádio, a parada muda bruscamente de forma e a “Black no. 1” marca uma nova fase da banda. Uma letra quase infantil com um toque de Família Adams, eles sacavam muito de marketing.

O rolê gótico abraça firme a nova pegada dos TON, são taxados de “Vampiric Metal”, Peter entra no jogo abraçando a personagem que pintaram para si. Na sequência, um outro video pra “Christian Woman”, com os seus 9 minutos de duração.

A letra teve de ser editada pra tocar em rádios, o que não adiantava merda nenhuma, o sentido continuava o mesmo. Existe uma outra versão (compacta) pra faixa, não sei o que pegou pra rolar isso.

Uma faixa inédita ficou perdida num single que trazia duas versões da “Christian Woman”, creio que seja a música mais aterradora que eles gravaram, a abismal “Suspended in Dusk”, onde se protagoniza uma ideia de vampiro, creio que para afirmar o rótulo que vinham recebendo.

Em agosto de 93 nasce o aclamado Bloody Kisses, uma cena lésbica como capa, o disco iniciando com uma mina gemendo de tesão, santo deus! Queriam incomodar a todo custo. Alguma coisa da pegada mais acelerada foi aplicada nas faixas “Kill All the White People” e “We Hate Everyone”, a faixa derradeira com uma cítara, uma levada oriental, além do cover Summer Breeze (Seals and Crofts), enfim, era algo jamais experimentado até aquele momento, tanto que rendeu discos de ouro e platina pra gravadora.

“We Hate Everyone” foi uma resposta ao movimento antifa da Holanda, protestos fizeram com que uma apresentação da banda por lá fosse adiada, o motivo foi uma música do debut chamada “Der Untermensch” (o sub-humano), na faixa, Peter parece tratar de sua insatisfação com as pessoas que recebem algum benefício da assistência social, pessoas que nem necessitam do benefício, além de drogados que utilizam a grana pra manter os seu vícios, é realmente uma crítica pesada, ele os chamam de Socioparasite,  no refrão – Waste of life – You’re a waste of life, fica ainda mais nítido o desprezo, mas a questão é; qual era o contexto da época? Eu não faço ideia, isso podia ser uma crítica política voltada ao bairro deles, a algum tipo de realidade que conviviam… a sagacidade de Pedro Aço se fez presente uma vez mais, ele escreveu uma letra que atravessará o tempo fazendo sentido contra pessoas politizadas em extremos (como alguns tipos que vemos na atual polarização brasileira, onde ou você concorda com toda a merda que acreditam ou você é um inimigo, sem pensar, apenas aceite, SEJA MAIS UM ESCRAVO!), o protesto gerou polêmica, e toda polêmica faz com que o protagonista ganhe mais destaque, isso foi descrito na letra como “publicidade gratuita”, Peter tinha uma classe pra ser um filho da puta sacana. “Kill All the White People” seguiria no mesmo encalço, mas com uma mensagem minimalista, um provável sarcasmo com a pauta dos antifa, o cara curtia causar mesmo, puta merda…

Sal Abruscato acaba se desentendendo com a banda e cai fora, Johnny Kelly assume o seu lugar. A 1ª gravação de Kelly foi uma versão pra Paranoid, o cover foi acrescentado numa nova prensagem do The Origin of the Feces lançada em 94, a versão contou com riffs de Iron Man. O novo quarteto se solidificaria até o fim da banda.

October Rust é o 2º play da nova fase, foi lançado em 96, mais um disco recheado de hits, mais melancólico e comercial, novos video-clipes. Reza a lenda que por via da faixa inicial que apresentava um zumbido, muita gente retirava o disco do deck pra ver se tava rolando alguma cagada, o zumbido dura 38 segundos e termina em gargalhadas, um tanto bizarro. A faixa “Love You to Death” se tornaria um dos seus maiores hits, um experimento mais melancólico e sombrio. O play é considerado como o que mais Josh se destacou, suas linhas de teclado ganharam mais espaço, fora que seu trampo no disco é absurdo, suas atmosferas são únicas, você saca de longe o que tem a mão do cara.

O culto ao lesbianismo retorna, porém, com um cara participando das atividades, fico imaginando o tamanho da polêmica que se tornaria nos tempos atuais.

Mais um cover se fez presente –


Encerrando essa 1ª parte, TON tem muita história, porém, mais pro lado pessoal dos membros, eu não tô aqui pra fazer biografia, por isso, busquei tratar de assuntos relacionados ao conteúdo musicado. Até a próxima.


 

Que Coffin Joe vos amaldiçoe! – G.Z/SUD

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