Um mergulho no mundo do Rock ocultista – Ato VII

 

Esse lance de continuar falando sobre o roque ocultista acabou “morrendo” quando passei a categorizar as bandas em seus sub-estilos, que deu início a matérias especificas, no meio disso eu acabei deixando de lado alguma coisa que se enquadrava na proposta, porém, bandas com mais fama. É hora de falar sobre a jornada desses conciliábulos, boa viagem.


Não poderia escolher outra banda pra iniciar esse pequeno mergulho. Fundada em 2006 em São Francisco, na Califórnia, como um quarteto; Keith Nickel – baixo, Mark T. Baker – guitarra, Theo Mindell – voz e Carter Kennedy – bateria, os Orchid, considerada uma banda fortemente chupada dos Sabbath, seu batismo foi um homenagem ao instrumental acústico presente no Master of Reality, Theo procura se vestir como Ozzy dos 70, seu corte de cabelo, a forma de segurar o pedestal, de agitar e até o exacerbado “oh yeah”, essas coisas acabaram incomodando muita gente, os riffs plagiados… por outro lado, agradou muita gente também. Orchid estreou no início dos 2010, seus 2 EPs lançados em 2009 abriram caminho pro debut em 2011, naquele tempo, essa onda revival sabbathica era bem menor do que hoje, as poucas bandas que se aventuraram já se tornaram cvlts e serviram de inspiração/influência pra quem veio depois, essa parte é bem interessante, algumas se perderam em sonoridade ou simplesmente acabaram, acontece, a história não pode parar de se repetir.

Capricorn foi lançado em fevereiro de 2011 via The Church Within Records, um selo alemão, Theo é um tatuador experiente, ele cuidou de toda a arte do disco, caprichou na capa, característica de bandas com proposta obscura com pegada 70’s, que fossem clichês e mais clichês, mas eles sabiam o que tavam fazendo. Aquele som pegou muita gente de jeito na época, um novo modo de fazer música velha ainda não muito explorado. Produziram um video-clipe pra faixa título, bruxaria, thelema, magia oriental, todo aquele aparato vintage obscuro, simbologias e alegorias, de certa forma, era tipo uma nova revolução do que já foi revolucionado, o impacto foi grande no submundo.

Os lek acabaram chamando a atenção da gigante Nuclear Blast, uma gravadora sempre ligada no hype, espertos pra caralho. 2012 marca o lançamento de um EP contendo 4 faixas, 2013 foi um ano mais movimentado, iniciaram o ano com um EP contendo 3 faixas, o 2º disco nasce em abril, a Nuclear prensou vários discos de vinil coloridos que acompanhavam poster, material numerado a mão, só nos resta saber se o vinil é de gravação analógica ou digital, esse novo culto ao bolachudo é intrigante, muito intrigante. Mais video-clipes foram produzidos, um deles pr’uma faixa do 2º EP de 2009,  mais 2 pra faixas presentes no novo disco, agora, sob os cuidados da Nuclear. Pra encerrar 2013, compilaram material que precedeu o debut, gravações não masterizadas, desta vez, um digipak limitado.

Nesse curto tempo, os Orchid já acumulavam presença em festivais como Hammer of Doom, Roadburn, Hellfest e Rock Hard, por exemplo, ainda passaram pelo leste europeu. 2014 parece ter sido um ano de descanso, em 2015 eles aparecem com um EP com 4 faixas inéditas, seu som permanece intocado.

Carter deixa a banda ainda em 2015, ele se juntou com uns texanos e continua fazendo barulho nessa pegada. A debutagem rolou em março de 2018, um som potente fortemente calcado na escola 90’s estadunidense, sem deixar de lado uns fragmentos dos 70.

Carter foi substituído e os Orchid continuam como um quarteto, seguem ativos mas eu não tenho informação sobre que tão aprontando, nem fui atrás. O lance admirável nessa estória é o fato deles conseguirem ficar de boa com tanto pela saco os chamando de cover dos Sabbath, não que seja muito injusto, mas deve se ter muita paciência, talvez eles tenham ganho uma boa grana.


Na sequência, outra banda bem badalada no rolê. Terninhos que te farão lembrar dos Bitous, as vezes um visu tipo bruxo suave, letras e estética sonora baseada nos filmes da Hammer Horror, sim, eles mesmos, os Uncle Acid & the Deadbeats. Também é possível considerar como linha de frente da nova onda do revival obscuro, o quarteto de Cambridge, na Inglaterra, já chegou debutando em 2010, um disco composto por 8 faixas emulando uma gravação analógica, diferente dos Orchid, nos Uncle Acid são duas guitarras, isso deixa a coisa mais ardida, necessário pra fazer a voz do Uncle Acid (Kevin Starrs) – guitarra/voz/órgão.

Em 2011, sem perder tempo, o 2º disco é lançado, até então, o material lançado era simplório, versão em cd-r de prensagem pequena, criaram um próprio selo pra esse fim, chamava-se Killer Candy Records, lançaram apenas seus 2 discos iniciais, porque o som havia chamado a atenção da Rise Above Records, que profissionalizou a parada, rolou um lançamento no mesmo 2011 pelo selo de Lee Dorrian, além dos seus comparsas da Metal Blade ter trazido o material pra América. Foi aí que os Bitous do roque bruxo moderno atraíram a atenção de mais gente.

Não sei se era já comum a produção de “video-clipes” compostos por trechos de filmes específicos, pois isso rolou numa faixa do disco. Digo isso porque essa prática acabou se espalhando, Electric Wizard cagou muito tempo pra esse tipo de produção, mesmo assim, uma galera que curtia o som deles passou a produzir material nesse naipe, um lance incrível já que eles nem precisaram se esforçar pra divulgar o som, essa prática de utilizar cortes de filmes em “clipes” já é bem comum, pode se dizer até como uma ideia bem batida.

O 3º disco foi parido em 2013, o som sofrera alguns ajustes, buscaram uma timbragem mais rústica, suja, investiram em passagens mais obscuras com as teclas, ao mesmo tempo que soava mais moderno do que os anteriores.

2014 foi um ano de singles e uma tour nos EUA, uma vez mais rolou aquela picotagem de filmes, ainda incluíram reportagens sobre assassinatos entre outras insanidades em seus “video-clipes”, o culto ao mundo dos psicopatas vinha forçando a barra, mas tava em alta, continua em alta.

Em setembro de 2015 nasce o 4º disco, parece soar mais chapado que os anteriores, mais polido também, a mais recente empreitada foi um single de 2016, na real, um 7″ com uma faixa do disco de 2015 + um cover dos Maiden gravado especialmente pr’uma edição da revista inglesa Kerrang.


Apesar de não se aprofundar nesse universo do sinistrismo de gibi, não posso deixar de citar uma banda que figura entre as principais dessa onda revival, mais antigos que as duas abordadas até aqui. Witchcraft foi fundada por Magnus Pelander (guitarra/voz) em Örebro, na Suécia, o início se deu em 2000, após juntar uns caras e gravar um cover dos Pentagram, Magnus decidiu dar sequência. Antes de continuar, devo destacar aqui a antiga banda de Magnus, os Norrsken, foi lá, em 95 que tudo começou. Norrsken se perdeu no tempo com algumas demos, nos vocais um sujeito chamado Joakin Nilsson, que alguns anos mais tarde fundaria os Graveyard, fervilhando ainda mais o mundo vintagista. Uma boa alma fez o favor de compilar os materiais e postar no youtube, Norrsken era selvagem, bebia da fonte 70’s sofrendo fortes influências do Stoner americano.

https://www.youtube.com/watch?v=-_ZykSsUTOE

A 1ª manifestação dos Bruxaria aconteceu em 2003, um single com duas faixas, debutam no ano seguinte via Rise Above, o play auto-intitulado seria um dos responsáveis pela nova onda revival, o disco faz de tudo pra te remeter a um som analógico, toda atmosfera é baseada naquelas bandas do submundo dos anos 70, acertaram na timbragem. Pra variar, incluíram um cover dos Pentagram, a faixa original foi gravada em 71. Em 2008 foi lançada um versão japonesa com outro cover dos Pentagram – “Yes I do”.

A empreitada obteve êxito, em 2005 o 2º disco é parido, seguindo a receita do anterior, com um pouco mais de brilho, uma vez mais repetem a dose de cover pentagramero, desta vez foi a faixa “When the Screams Come”, porém, o cover não consta como música a parte, fora incluído no fim da última faixa do disco.

https://www.youtube.com/watch?v=5P80DrCZcQ4

Uma certa dificuldade em manter uma formação estável, sabe-se lá das aspirações de Magnus, o 3º disco perde toda aquela casca rígida dos anteriores, mostra um som mais limpo, soava mais próximo do recém-formado Graveyard, que inclusive, debutou um mês antes do lançamento do The Alchemist.

https://www.youtube.com/watch?v=NgBZSKXpphg

Adivinha quem prestou mais atenção na banda? Isso mesmo, a Nuclear Blast, queriam sugar o que podiam pra mandar naquele nicho, em julho de 2012, um single com duas faixas é lançado via o novo selo, o material precedeu o 4º disco de estúdio. Uma puta metamorfose sofrida na sonoridade, se tornou mais acessível em relação ao que vinha fazendo, é de uma coragem admirável ir experimentando com o tempo.

https://www.youtube.com/watch?v=z3xSP0Ko1TA

A coisa não parou por aí, agora como um trio, eles foram ainda mais além do lado mais macio/comercial no 5º disco, vários instrumentos elétricos antigos, flauta, etc… Magnus foi quem produziu, em seu próprio estúdio… a audácia vem desde os tempos de Norrsken, eu particularmente não acho muita coisa no som dessa banda, mas não importa, Witchcraft tem o seu nome cravado nesse rolê.


Uma alemã tromba uma sueca e uma banda surge. Lembro muito bem o quanto foi um baque quando as The Oath apareceram no rolê, Johanna Sadonis havia feito escola no lado mais extremo da coisa, Linnéa Olsson havia feito barulho numa banda de Heavy Metal chamada Sonic Ritual. Johanna também atuava como DJ, fez parte de banda pop, e trampa como promotora, o caminho não seria tão difícil pra quem tinha uns contatinhos, nem sempre! A estreia se deu com um single contendo duas faixas, quem assumiu o baixo foi o atual baixista dos Kadavar, o gigante Simon Bouteloup. O single foi o suficiente pra causar na mídia europeia, a Rise Above abraça a causa e lança o único disco das mina. Johanna chegou com uma voz não tão comum, mas, sem duvida o que chamava muita atenção era a beleza das galegas em trajes negros de couro sintético, tanto que Linnéa reclamou sobre esse tipo de visão em algumas entrevistas, ela não queria ser vista com uma mulher gostosa, creio que tenha sido um dos motivos para o fim da banda, com apenas 2 anos de estrada.

https://www.youtube.com/watch?v=X6W-UM86Hx8

Johanna seguiu pelo mesmo caminho iniciado em The Oath, logo em seguida fundou Lucifer, que debutou no ano seguinte, a formação já contou com Gaz J. (Cathedral), Diccon Harper (Pagan Altar) e agora tem a presença de Nicke Andersson (Entombed).

https://www.youtube.com/watch?v=Rs8QdGz1FfM

A Rise Above também abraçou a nova empreitada, o som dos Lucifer não segue o que as The Oath criaram. No fim de 2017, uma faixa promocional foi liberada, faz parte do 2º disco que deverá ser lançado em 2018, mostra um som mais sabbathico, mais pesado.

Um contrato firmado com a gigante Century Media rendeu o 2º disco da banda, lançado em julho de 2018, com uma pegada mais pop e vintage que o debut, duas faixas transformadas em clipes, o Lucifer II é simplesmente um chuchuzinho!

Linnéa foi parar nos Beastmilk/Grave Pleasures, gravou um disco, fez alguns shows e pulou fora, em sua mais recente empreitada, ela é a mandachuva, cuida da voz, guitarra, letras, bem distante do que fazia nas The Oath, ela investe num som com cara de Post-Punk moderno, na onda Grave Pleasures, porém, um tanto mais torto.


Pra encerrar, uma banda holandesa contendo 2 membros do finado The Devil’s Blood, fronteado por uma mina da pá virada que fazia uns barulhos estranhos. Ryanne van Dorst começou a moldar o que seria o som dos Dool em sua antiga banda – Elle Bandita, um roque moderno e ardido. Dool ganha forma em 2016 com um single, Ryanne abandona aquela onda “menininha” de sua antiga banda, sua voz é carregada de potência, desespero, o som vai do Goth ao roque pique The Devil’s Blood, oscila entre atmosferas psicodélicas modernizadas, é um puta experimento primoroso, eu pirei d+ no som e vou rasgar seda mesmo, foda-se!

Com 3 guitarras, uma cozinha (os 2 TDB) que já se conhecem muito bem, afiadíssimos, puta que pariu, o video-clipe lançado em 2015 serviu pra mostrar o potencial do quinteto.

O selo alemão Prophecy abraçou a causa, eis que no início de 2017 seu debut é lançado, composições com vida própria, uma roupagem sonora original, cativante, um som que te atormenta lhe fornecendo uma dose de prazer, um prazer mergulhado no pavor, é de uma beleza soturna, por vezes agonizante, mesmo tão bem polido, bem estruturado, é o mais puro ouro do abismo!


 

Que Coffin Joe vos amaldiçoe! – G.Z/SUD

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3 comentários sobre “Um mergulho no mundo do Rock ocultista – Ato VII

  1. Anônimo

    Lembro que Orchid, Uncle Acid & the Deadbeats, Witchcraft e Kadavar foram as 4 bandas que fizeram abrir minha cabeça para escutar novas bandas.
    Sou mega fã dos desses bandas.
    Kavadar já veio ao Brasil. Só falta as outras 3.
    Cara!!! Que matéria foda!!!
    Vc são ducaralho!!! Long Live Rock N’ Roll!!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Sobre as primeiras bandas dessa matéria( Orchid, Uncle Acid, Witchcraft) nada de novo a falar. Contribuíram muito para renovar o interesse pelo rock mais ardido, direto, pesado e soturno, junto à galera roqueira em geral. (“Sinistrismo de gibi’ é excelente, muito preciso, aliás.). Ouvi bastante todos ( o Orchid, por vezes é sabbático demais, convenhamos, sem dúvida eles são em parte responsáveis pelo turbilhão de doom e stoner que varreu o planeta e nada fez além de repisar o Sabbath).
    O the Oath considero superior ao Lucifer, pena que durou pouco;
    Não sabia que a Linnéa passou pelo Grave Pleasures, valeu pela informação;
    O Maggot Heart é legalzinho, a ouvir com mais atenção.
    Esse Dool… que que é isso, senhores das catacumbas abissais!!! Mulher, quando canta bem e invoca os demônios com a voz, é imbatível. Esse disco não é um disco, é um ritual completo!! Como professor de português e escritor medíocre, consegui sacar, na sua descrição dessa piração sonora, o efeito que te causou( efeito muito semelhante ao que me fez).
    Saudações.

    Curtido por 1 pessoa

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