Candlemass – Parte I: Nemesis, Epicus Doomicus Metallicus e a inclusão de Messiah Marcolin

Lembro de ter prometido tratar de uma forma especial a história dos Candlemass quando eu iniciei essa imensa jornada abordando bandas do lado lerdo da força, num passado não distante quando tratava das bandas com temáticas ocultistas, “satanistas” e afins… pois é, essa promessa ficou martelando tanto na minha mente que devo dar um jeito logo nessa porra pra ficar de boa, na real, tô sendo atormentado pra fazer algo parecido com a história dos finados Type O Negative e Solitude Aeturnus, vou desenrolar.

Candlemass é uma banda simplesmente indiscutível no rolê lerdo, sua importância, toda a base que criou para o que veio depois, é o maior divisor de águas no sentido duma sonoridade ainda autêntica que veio em seguida, nos anos 90; as peripécias da galera do Death/Doom, nesse pacote, incluem-se tranquilamente os Celtic Frost, outra banda símbolo duma quebra na monotonia, da expansão de um novo som. Eu ainda não tive o desgosto de encontrar alguém que se julgue adepto do Doom Metal e não aprecie nada dos Candlemass, claro que é possível, claro que cada um cria seu gosto sem ter que prestar satisfação a filha da puta algum, mas, isso não quer dizer que um pau no cu desse não mereça ser esculhambado até sua digníssima morte. Como qualquer banda com importância, qualquer banda qual seu som se tornou fonte pra muita gente que veio depois, mergulhar até se afogar, a probabilidade de ter feito merda no meio do caminho é altíssima, com os Candlemass não foi diferente, mas não foi tão gravíssimo assim, até porque acabaram se encontrando novamente. Estamos falando duma mente brilhante e também dum ego do tamanho da Terra, esse fulano se chama Leif Edling, abraçou o posto de baixo na banda, ou seja, tinha o menor destaque em ação, enquanto comandava a porra toda como um patrão exigente. Leif topou/reuniu figuras que se tornaram referência, figuras que já acumulavam um peso no rolê, sempre incluiu gente do alto escalão do submundo qual pertencia, isso não é pra qualquer um, temos que admitir que o mano tem sangue quente.

A jornada de Leif teve início em 1982, na capital sueca, com uma banda chamada Nemesis, se juntaram a ele 3 caras: Anders Waltersson – bateria, Kristian Weberyd – guitarra e Anders Wallin na outra guitarra, conseguiram gravar o 1º EP em 1984 – The Day of Retribution, com 5 faixas, logo após o lançamento do EP, Anders cai fora e é substituído por Mats Ekström. Um fato bizonho aconteceu naquele momento, uma loja de artigos eletrônicos do sul da Suécia, com o mesmo nome de Nemesis, ameaçou processar a banda por se utilizar do mesmo nome (ou marca?), isso porque como você deve saber, Nemesis é uma deusa que pertence a mitologia grega.

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O som dos Nemesis era calcado no Heavy Metal dá época, gamados no lado mais desacelerado dos Sabbath, eles deram uma investida naquilo, acrescentaram a sua forma de interpretar/executar aquele som, no mesmo 84, antes do EP, eles lançaram uma demo chamada Tales of Creation com 5 faixas, obviamente, todas elas foram regravadas para o 4º disco dos Candlemass. Das 5 faixas do EP dos Nemesis, apenas uma foi regravada e teve seu nome modificado, a “Black Messiah”, que figurou no Ancient Dreams como “The Incarnation of Evil”.

Quem cuidava das vozes era o próprio Leif, eu não vou colocar as outras faixas aqui, todas as faixas do EP estão disponíveis no youtube e não é difícil encontrar o material para download. Leif lançou em 2002 um duplo contendo essa rara demo remasterizada, mais umas paradas perdidas dos Candlemass e dos Abstrakt Algebra (outra banda que ele fundou e abordarei mais além).

Sob a alcunha de Candlemass, agora como um trio, pois Anders W. caiu fora quando Nemesis “acabou”, assim dera início a gravação de uma demo, o material trazia 3 faixas inéditas e uma regravação da “Into the Unfathomed Tower”, lançada em janeiro de 85.

Essa demo teria sido distribuída pros mais chegados, algumas enviadas para selos europeus, chegando na mão duma gravadora francesa chamada Black Dragon, que ficou com um pé atrás de abraçar a causa dos suecos, pediram mais uma demo, então eles gravaram outras 2 faixas antigas. A formação sofreu uma nova alteração, a adição de mais um guitarrista; Mats “Mappe” Björkman, grande figura, presente até hoje na banda.

Com uma qualidade acima da anterior por ter sido gravada num estúdio, quando enviada ao selo francês daria uns pontos pros suecos, ainda com um pé atrás, o selo resolve bancar o debut, no valor 2 mil dólares, considerado um investimento baixo pra época. No início dos preparos do disco, Kristian os deixam, sem muito tempo, resolvem contratar um guitarrista, após alguns passarem por testes, um mano chamado Klas Bergwall (guitarra solo) é o escolhido, ele vinha duma escola menos pesada, mas parece ter se enquadrado na proposta. Leif pode ser um cara estranho e casca grossa, mas uma coisa ele soube lidar muito bem, o fato de ser um péssimo vocalista, é nesse momento que a cereja do bolo será aplicada. Reza a lenda que o Mappe lhe mostrou uma fita duma banda chamada Jonah Quizz, uma banda de Heavy Metal cantado em sueco (ficou apenas em duas demos), o interessante é que o som deles era mais melódico que o comum na época, beirava o metal farofa, quem cuidava das vozes era um sujeito chamado Johan Längquist, após uma oferta, ele topou ser vocal contratado e deixou claro que não queria continuar com os Candlemass, ele havia iniciado um projeto de música pop e passaria a se dedicar a ele.

O baixo orçamento fez com que escolhecem um estúdio de baixa qualidade para ensaios e para a gravação do seu debut, reza a lenda que nem banheiro tinha, nem calefação, o disco foi gravado em pleno inverno de 86. Composto por 6 faixas, sendo apenas uma inédita, o hino “Solitude”, Johan L. é considerado um cantor barítono, ao contrário da pegada selvagem em sua banda, nos Candlemass, o lado operístico da sua voz foi usado, creio que até então, não era comum fazer uso desse tipo de artifício na música pesada, esse lado mais “profissional” da voz dele foi sugado até o talo. Epicus Doomicus Metallicus é um forma meio infantil de se dizer Epic Doom Metal em latim, Leif acredita ter inventado esse sub-estilo, suas influências eram principalmente Sabbath, Venom, Accept e Trouble. O disco foi lançado oficialmente no dia 6 de junho de 1986, acabou sendo um fracasso total, a Black Dragon encerrou o contrato com eles, e os Candlemass ficam reduzidos a Leif e Mappe. Um selo estadunidense licenciou a obra e a lançou  nos EUA, ainda em 86, e de lá pra cá, foram mais de uma dezena de re-prensagem em vários formatos. Em 2002, foi relançado (via Powerline Records) junto com um disco ao vivo gravado na terra dos Sabbath, em 1988, já com o Messiah no vocal. Em 2011, a Peaceville Records o relançou com mais um disco contendo um biografia falada por Leif sobre toda a correria do play.

https://www.youtube.com/watch?v=kjxb0NSSnfk

Live de 87 – https://www.youtube.com/watch?v=gcgyJUm9hY4

Epicus é um disco totalmente na contramão do que se fazia na época, era o patinho feio, era um experimento arriscado pra cacete, 6 faixas em mais de 40 minutos, no metal, aquilo era um insulto, faixas que ao invés de te fazer agitar o pelo, te enchiam de amargura, raiva e ódio, mas de um jeito quase melancólico, era realmente épico, mesmo não sendo totalmente baseado em histórias do gênero literário, letras baseadas em amores despedaçados, filmes de terror da escola italiana, alguma coisa de Senhor dos Anéis… Reza a lenda que Leif preferia a “Demons Gate” como abertura do disco, foi aconselhado pela “banda” a mudar de ideia e aceitar que a “Solitude” ocupasse o lugar, ainda bem. Estava criado uma nova forma de fazer a pouco brilhosa música lenta, era o som torto da época, o mais interessante é que foram explorar o lado mais sombrio, mais pesado, não o comercial e, é exatamente por isso que isso disco atravessou o tempo e atravessará tranquilamente, enquanto existirem adeptos com essência em seu gosto pela música pesada, com alma, este disco terá o seu lugar garantido na História.

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O produtor do disco foi um cara chamado Ragne Wahlquist, ele foi um dos fundadores duma banda bem importante na História do metal sueco, os Heavy Load, fundada em 76, Ragne ainda não era um cara experiente, parece até que era bem amador na época, como já comentei sobre o estúdio em que o disco foi gravado… mas ele fez um bom trabalho, talvez, toda essa dificuldade contribuiu para ser o que é hoje, o debut dos Candlemass. A arte que imortalizou a banda foi criada por um mano chamado Eric Larnoy, ele já havia trabalhado com outras bandas, como os Manilla Road, banda que fazia parte do cast da Black Dragon Rec. que provavelmente sugeriram que o selo apostasse nos camaradas iniciantes, Eric faleceu em 96.

Um fato pessoal; apesar de amar todo o disco, a Under the Oak me arrepia por completo, o desespero do Johan é simplesmente matador, a estrutura daquela faixa é maravilhosa, altos e baixos, prefiro essa versão do que a com o Messiah, anos depois, no Tales of Creation.

Sendo apenas um duo, era hora de sair a campo em busca de novos doidivanas que compactuassem com a proposta. Um baterista dumas bandas do rolê Thrash Metal, chegado de Leif, indicou um cara duma cidadezinha chamada Ronneby, no sul da Suécia, Bror Jan Alfredo Marcolin era o seu nome, hoje, mais conhecido como Messiah Jan Alfredo Marcolin, ou apenas Messiah Marcolin. Messiah iniciou seu rolê como baterista duma banda chamada Sounds que não obteve êxito, sua caminhada como vocalista começou em 83, quando ele caiu pra dentro dos Mercy, onde ele gravou os 2 primeiros discos da banda (84/85), portanto, antecessores aos Candlemass, foi lá que sua voz passou a ser moldada. Eu já abordei a história dos Mercy em alguma matéria sobre o Doom Metal, de qualquer forma, deixo uma faixa de cada disco pra quem não saca isso.

Leif entrou em contato com Messiah, em seu retorno por telefone, Messiah cantarolou a Solitude enquanto a mãe de Leif o chamou para atender, assim se deu o início dele na banda. Fechado os acordos comerciais, Messiah se mudou pra capital. Em março de 87 ele grava seu primeiro material com os Candlemass, uma demo com duas faixas. Leif tinha encontrado um novo baterista – Jan Lindh, na banda até hoje, pra guitarra solo, ninguém mais do que Mike Wead (Mercyful Fate/King Diamond, etc…), com o time em campo era só desenrolar a partida.

A faixa Batlecry ficou reservada a demo, não tenho conhecimento de que tenha sido regravada. Nightfall começou a ser gravado em julho de 87, Mike W. gravou algumas linhas de guitarra, mas acabou tretando com Leif por sua maneira de tocar, ele abandonou a banda, porém, suas linhas foram usadas e não creditadas no disco. Foi aí que o canhoto Lars “Lasse” Johansson caiu pra dentro, permanecendo até hoje como guitarrista solo. Um selo inglês chamado Active lançou o bolachão em novembro de 87, selo que com o tempo se tornou a gigante Music for Nations. Messiah chegou botando banca na parada e tirou da cabeça de Leif o nome que ele queria para o disco – Gothic Stone, foi Messiah que batizou o disco, ainda escolheu a capa. Uma faixa do disco ganhou um clipe, o famoso Bewitched em que uma lenda viralizou, a de que o finado Dead (Mayhem) teria participado, boato desmentido pela banda. Vale ressaltar a hilariante atuação de Lasse solando com o braço quebrado, meteção de loko pura!

Com uma formação sólida, um contrato com uma gravadora, Leif e sua trupe acataram o convite pro Dynamo Open Air de 88, realizado na Holanda. Com a galera cantando junto e Messiah agitando, ficou claro que aquela banda com uma sonoridade diferenciada tinha afetado a mente dos metaleiros europeus.

Após a apresentação no Dynamo, a Active Records os fez se aplicarem na gravação de um novo disco, com uma tour fechada pela Inglaterra pra 89, o selo apressou a produção do disco Ancient Dreams qual até hoje a banda considera ruim, principalmente o Leif, o atropelo fez com que a masterização e mixagem não fossem realizadas pelo mesmo cara que trampou isso no Nightfall, ele não tinha tempo disponível naquele curto prazo, além disso, Leif queria algo parecido com o Nightfall, com faixas instrumentais intercalando, não rolou. A parte lírica ficou mais fantasiosa também. Ao contrário do que imaginava Leif, o disco foi muito bem recebido pelo público, vendeu mais do que o Nightfall. A ideia era lançar o disco na tour, Leif diria putaço anos depois – “Nos fizeram trocar um disco ruim em nossa história por uma tour…”

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Uma vez mais, uma faixa ganhou um audioclipe, a versão em cd, ganhou um bônus dum medley dos Sabbath com esboços das – “Symptom of the Universe”, “Sweet Leaf”, “Sabbath Bloody Sabbath”, “Into the Void”, “Electric Funeral”, “Supernaut”, and “Black Sabbath”, doidera total. O disco foi lançado no fim de novembro de 88.

Com a formação intacta, com o sucesso não esperado do Ancient, sem perder tempo, após a realização da tour inglesa, iniciaram a gravação do 4º disco de estúdio, Tales é o disco mais maduro daquela fase, com narrações, uma faixa instrumental explosiva, tinham retornado com a receita de Leif, porém, uma vez mais fizeram com que ele desistisse da escolha da capa do disco hahaha… Tales foi lançado no final de setembro de 89. Foram 4 anos seguidos com um disco pra cada ano, isso é muito arriscado, a saturação não tardaria, então lhe restaram duas opções, ou continuavam naquela onda ou se tornaria comercial, era o início de mais um período obscuro na banda.

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https://www.youtube.com/watch?v=oGHcrR7X1bE

Em sua passagem pela Inglaterra, eles participaram dum projeto que reuniu mais duas bandas de Thrash Metal, essa parada acabou em um 3 way split em VHS que foi lançado em 90, foram 5 faixas executadas ao vivo no meio da pancadaria.

     – https://www.youtube.com/watch?v=_Kr9sYIrOWc

Ainda em 90, o 1º disco ao vivo foi lançado, um disco duplo de um show gravado em Estocolmo especialmente para o disco. Começaram a rolar as tretas de Leif com Messiah, enquanto Leif queria explorar o lado mais experimental (comercial) da banda, Messiah queria manter algo tradicional, essa situação tornou inviável a permanência de Messiah nos Candlemass, o que o fez deixá-los em 91. Messiah passou por outros projetos após isso, retornou anos depois para gravar um disco, mas… vou abordar essas situações mais além.

É melhor encerrar por aqui, na próxima parte, teremos um Candlemass completamente diferente desse abordado até aqui, mergulharemos num período mais sombrio da história da banda e algo mais…


 

Que Coffin Joe vos amaldiçoe! G.Z/SUD

2 comentários sobre “Candlemass – Parte I: Nemesis, Epicus Doomicus Metallicus e a inclusão de Messiah Marcolin

  1. M.

    Se o Candlemass desmentiu ou não a “aparição” de Pelle Ohlin no clipe de Bewitched eu não sei, mas que ele figurou no vídeo, isso é certeza. Ele aparece atrás de Messiah Marcolin, com o rosto contorcido pelas caretas. Sem a menor dúvida, é ele. Fato elucidado também pelos tênis (aparecem os pés dos figurantes nos minutos finais). O tênis de cano médio, branco e com manchas encardidas é de Per Yngve Ohlin. Sem dúvidas quanto a isso também.

    No mais, bacana o seu texto!

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