A melancolia no Doom Metal, um mergulho nos anos 90 – Parte I

É hora de mergulhar no lado mais meloso da música lerda, o sub-estilo que mais se popularizou e que mais causou/causa confusão na cabeça dos desavisados. Existiram duas matrizes sonoras que foram lapidadas na segunda metade dos anos 80, uma delas criou uma sonoridade que mescla o Death Metal com andamentos mais lentos, marretados, outra, pegou esse mesmo Death Metal mais lento, acrescentou uma roupagem melódica, melancólica, que foi se desenvolvendo sem freio no decorrer dos anos. O Death Metal até então, era a forma mais extrema de se fazer música pesada, na mesma década, a música pop atingia o seu ápice, influenciando toda aquela geração de jovens garotos rebeldes que não ouviam só rock, deveras seja esse fator, algo que incutiu toda a transformação que ocorreria nos anos 90. A tríade inglesa da melancolia “brutal” (Paradise Lost, A. e MDB) + os nórdicos da mesma pegada (Katatonia, Amorphis, Tiamat) foram os responsáveis por difundir aquele tipo de som pelo mundo, claro que existiram outras bandas com a mesma proposta, mas sem o mesmo apoio e estrutura. Coisas grotescas que eram alvo das letras deram lugar ao romantismo, desilusão amorosa, depressão, entre outros conflitos existenciais, não era só a música sofrendo mutações, as ideias também. Essa mudança foi potencializada na 2ª metade dos 90, com o advento do chamado Gothic/Doom, muitas bandas que faziam o Death/Doom “meloso” viram nessa nova onda uma certa chance de se popularizar, porém, aconteceu um outro fenômeno, o do chamado Symphonic Metal, que acabou emprestando muita coisa dos sub-estilos anteriormente citados, como; o vocal gutural, a voz lírica, riffs e até a estética, incluindo ainda uma certa dose de medievalismo, moda e ainda mais “romantismo”, isso acabou soterrando o ainda engatinhante Gothic/Doom. Eu costumo chamar esse sub-estilo de Death/Doom chorão, ou, genérico, não é questão depreciativa, até porque, eu curto muita coisa nessa pegada, genérico por se distanciar do tradicional, por ter sido mais consumido, por ter sido passageiro e só não caiu no esquecimento porque a memória do roque é boa e se mantém o que é bom para sempre. Esse sub-estilo foi uma sequência de tiro no pé, como disse acima, foi se metamorfoseando, emprestando um pouco de cada estilo com características parecidas, de início, o vocal gutural do Death Metal, depois, do Goth Rock, até algo do Industrial, da música lírica… A parte interessante é toda essa transformação ocorrida nos anos 90, não só nessa nova forma de se fazer Doom Metal, mas em todo o Metal transições e experimentações estavam acontecendo, os que não tiveram medo de se arriscar, ou ficaram ricos, ou se perderam e acabaram com seus projetos, outros permaneceram da mesma forma e hoje se tornaram lendas vivas ainda ativos, essa, sem sombra de dúvidas, é uma das belezas entre tanta complexidade que a música pesada contempla.

Sobre as polêmicas questões de rotulagem e a parte comercial, isso remete a opinião pessoal de cada um, tentarei ser imparcial mas sem deixar de expressar o que penso sobre as bandas que abordarei. Rótulos são necessários, enquadram um sub-estilo e facilita sua promoção, um comparativo porco; você bebe sua breja sofisticada toda pomposa ou bebe uma itaipava? Não é tudo cerveja? É assim que funciona, um “produto” é reproduzido com as características próprias de cada fabricante deste mesmo produto, vulgo, marca.


Entre as bandas que fizeram fama, os Paradise Lost são os mais antigos, começaram como a maioria, mandando um som mais truculento, como é mostrado na 1ª demo de 1988.

Em 1990, debutaram, fecharam o lançamento com a fervilhante Peaceville Rec., gravadora inglesa ainda atuante que conta com inúmeras figuras importantes do submundo em seu catálogo, o play foi lançado nas 3 versões possíveis (CD, vinil e K7), de certa forma, foi esse disco e o seu grande alcance que acabou carimbando o que seria então aquele sub-estilo ainda em fase embrionária.

O experimentalismo comeria solto no 2º disco, Gothic. Além da presença duma adocicada voz feminina, uma orquestra sinfônica produziu arranjos para a obra, eles estavam a frente de seu tempo.

Shades of God mantém a voz feminina (em menor proporção), substitui a orquestra por um teclado, fica um disco parcialmente amolecido, de menor impacto que o antecessor. Duas faixas do disco ganharam clips, talvez sejam eles os primeiros desse rolê a se meterem nessa de audio-visual.

A fase Doom chorão dos britânicos se encerra por aqui, com o lançamento do Icon em 93, apresentando uma sonoridade com um pé em outra pegada sonora que acabou por se distanciar por completo com o Draconian Times de 1995, disco que acabou popularizando um outro modo de executar música gótica, ou como chamam, o Gothic Metal.


Os Anathema foram pelo mesmo caminho, com faixas mais longas que o costume, se iniciaram na podreira, segue  uma faixa da demo de estreia de 1990.

Eles ainda lançariam uma demo em 91 e um Ep em 92, até debutarem no ano seguinte com o lindão Serenades, de fato, na segunda demo eles embarcaram no lado mais meloso da coisa e só foi sendo nutrido com o tempo.

Serenades mergulha no poço, outro disco lançado pela Pieceville, que uma vez mais exportou pro mundo a nova onda do “Doom Metal”, é interessante o fato deles conseguirem se esquivar do já massivo intento dos conterrâneos Paradise Lost, que nessas alturas ia pro seu 4º disco, o Icon. Creio que entre as cativantes faixas do debut, duas delas formaram o carro-chefe, a praticamente gótica “Sleepless” e a acústica cantada em francês por uma vozinha fofa “J’ai Fait Une Promesse”, coisas ainda não experimentadas descaradamente na época.

Em 1995 eles mostrariam que o lance deles era realmente o de mergulhar na melancolia que beirava o desespero, assim nasceu o EP Pentecost III com seus quase 40 minutos, seria o último material gravado com o vocalista Darren White, seu posto foi assumido por Vincent Cavanagh, responsável pela voz no 2º disco lançado ainda em 95. The Silent Enigma deixou a parada ainda mais chorona, investiram forte na atmosfera criada por teclados, Vincent mostrou do começo ao fim que tinha dificuldade com seu vocal gutural, o rapaizinho se virou como pode.

No ano seguinte, Eternity ganha vida, também marcando o fim da era mais pesada da banda, Vincent passa a usar um vocal mais limpo, a atmosfera triste é a parte mais explorada do contexto. Dali 2 anos, Alternative 4 seria lançado e mostraria a mudança radical sofrida e, isso não quer dizer que seja um disco ruim.

 


Os My Dying Bride também estrearam em 1990, a demo deixava bem claro que eles estavam investindo numa outra proposta sonora.

Em seu EP, os MDB mostram a sua carta na manga; o uso de um violino, um som praticamente monótono de fundo, cordas e cozinha, com um foco reservado aos arranjos de violino, os sinos sintéticos, que tara tinham por esse efeito, mesmo assim, eles procuram manter o lado mais podrão de sua música no decorrer da obra.

O debut ganha vida em 1992 (também via Peaceville), eles mantém o lado monótono, os arranjos de violino, criam uma atmosfera em que duas guitarras seguem caminhos diferentes em momentos específicos, investiram pesado em andamentos arrastados que lembram de longe o lado mais tradicional, mesmo que ainda injetassem doses de Death Metal.

No ano seguinte, o 2º disco ganha forma, inicia-se com uma nova versão de “Sear Me”, Aaron S. aposenta seu vocal gutural na maior parte do disco, as bases Death Metal diminuem, era o prenuncio de uma nova mudança. O que veio a acontecer em 1995 com o lançamento do 3º disco deles, e se pa, o mais famoso e adorado. O som dos MDB não era mais apenas melancólico, agora era melódico também, uma vez mais o lado monótono das cordas ganhou destaque, o gutural é definitivamente abolido, talvez é nesse momento que o termo romântico se encaixe, claro que, acompanhado de uma profunda tristeza mela cueca da porra.

Apesar dos 3 discos seguintes que encerrariam os anos 90 da banda, eles conseguiram manter o peso, não se distanciaram tanto de suas raízes, por mais que tenham experimentado novas sonoridades, talvez seja correto afirmar que da tríade inglesa, os MDB foram os que menos se distanciaram daquilo que começaram.


Os Tiamat surgiram das cinzas dos Treblinka, todos os músicos aceitaram fundar uma nova banda com uma nova proposta sonora, diferente das demais, os Tiamat chegaram debutando de cara em 1990.

O 2º disco nasce no ano seguinte, calcado na receita do anterior, porém, com uma timbragem e uma atuação mais técnica, mais equilibrada, o que serviu de molde para o 3º disco. Clouds inicia com o tradicional “intro”, já te ganha na faixa seguinte, é macio e rude ao mesmo tempo, o disco apresenta uma nova atmosfera em todos os aspectos, inclusive na estética.

Em 1994 os suecos marcariam para sempre todo o rolê com um dos discos mais lindos que eu já ouvi em toda a minha vida estúpida. Wildhoney seria influência direta para as bandas que se aventurariam em mandar o chamado Gothic/Doom Metal, após esse disco, os Tiamat mergulharam numa outra vibe e acabaram ajudando a difundir um outro estilo, o Gothic Metal.


4 caras da capital finlandesa também estavam pra somar com o desenvolvimento da coisa, os Amorphis, estreando em 1991

No final de 92 nasce o debut deles, costumo dizer que esse play é uma aula de Death Metal, apresentava nuances diferenciadas, riffs que lembram alguma coisa da música oriental, apesar de inicialmente retratar assuntos que envolviam a História de seu país e sua ancestralidade.

Em 93 é lançado um EP composto por uma demo de 91 contendo versões de algumas faixas pertencentes ao debut. Em 94 eles lançam um disco que é considerado por muitos (inclusive eu) a sua obra prima, gravaram um clip para a faixa “Black Winter Day” e a Relapse Rec. fez um bom trabalho propagando o som dos mano pelo mundo. Completamente distante do play anterior Tales… traz uma pegada com cara de prog., vocais limpos (participação de Ville Tuomi que atuava no rolê Heavy Metal), aquela onda folk com cara de oriental é potencializada, um play bem original.

Tales… marca o fim da trajetória dos Amorphis num rolê mais parrudo e lerdo, Elegy (96) mergulha completamente no lado progressivo da banda, utiliza de alguns riffs da fase anterior e o vocal gutural, um novo vocalista entra na banda e assume os vocais limpos. Elegy é um play muito bem pensado, bem explorado, provavelmente o que fez com que eles explorassem mais no próximo disco. Passaram a investir num som mais moderno, pegada gótica, pegada progressiva…


Na Suécia, uma banda que se distanciaria um pouco das anteriores, trazendo muito mais melancolia em sua demo de estreia, o mais engraçado é que aqueles 2 garotos (L. Seth e S. Blackheim) pintavam a cara e faziam a maior pose de mal – pique filhos do norte das trevas, é de suma importância a presença de uma figuraça daquele país na produção da demo, Dan Swanö, ele cuidou dos teclados e dos vocais de apoio.

Em dezembro de 93 os Katatonia debutam, agora como um trio, um play com uma sonoridade quebrada, uma atmosfera triste quase infantil, um vocal rasgado que flerta com o desespero, letras desesperadoras, eles também tinham criado a sua própria forma de executar esse tipo de música.

Em 94 o trio grava um EP contendo 4 faixas, foi gravado e mixado no mesmo dia, porém, foi lançado só em 95. Uma faixa inédita também gravada em 1994 fez parte de um split com os irlandeses Primordial, em 96, faixa que mostra um lado fortemente Goth Rock do trio. Ainda em 96 o 2º disco é lançado, muito mais reto que o antecessor, trazia uma atmosfera, uma timbragem de guitarra que se tornou profunda influência para bandas modernas de black metal, é realmente um play com cara de gelo puro, um clássico dos anos 90.

Um EP de 1997 trazia novas mudanças, um som mais lapidado, que por vezes parece sofrer influencia das bandas da tríade inglesa. Em 98 a metamorfose se completa e o que é o Katatonia atual ganha forma. Um fato interessante é que quando eles encontraram a música que queriam fazer, se mantiveram fiéis à ela, claro que sem deixar de fazer uso dos modernismos da música.


Considero essas 6 bandas como um panteão do Death/Doom meloso, não por qualidade, por fama, mas sim, por importância, agraciados por gravadoras que fizeram um bom trabalho, suas próprias obras tem um valor irrefutável para a posteridade, por mais genéricas e sem graça que tenham se tornado, são grande parte da História do Doom Metal. Não me aprofundei na jornada dessas bandas porque não é sobre isso que vim tratar aqui, minha intenção é trazer o Lado B da coisa, tratei de abordar as fases iniciais dessas bandas justamente por estarem ligadas ao que se tornaria o Death/Doom meloso, pra ficar mais claro sobre o que estou falando, até porque, concordo plenamente que um desinformado afã de conhecer esse tipo de som deva ser iniciado com essas bandas, esses discos, foi assim que aconteceu comigo, e foi do caralho.

Na próxima parte, iniciaremos um longo caminho desbravando o Lado B desse sub-estilo, até lá.


 

Que Coffin Joe vos amaldiçoe! G.Z/SUD

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3 comentários sobre “A melancolia no Doom Metal, um mergulho nos anos 90 – Parte I

  1. Quando muleke vi, num DVD com vários clipes de Gothic Metal, uma música do MDB. Era a Black Voyage ao vivo em meados da década de 90. Foi algo novo e sensacional para mim; a sonoridade, a melancolia com direito a violino no palco, o peso… Foi quando percebi novas formas de “peso” no metal. Era genial desacelerar a música, se tornava mais forte e sentimental. Desde então o Doom fez parte da minha vida irremediavelmente.

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