Ocultismo, exoterismo, satanismo, filmes de terror. O lado obscuro da Música Lenta. Ato III – O leque se abre e a bruxa lança sua praga (80/90)

A partir daqui, essa nossa jornada passará a ser muito extensa, a proposta é mergulhar no mais profundo submundo a fim de trazer à luz bandas perdidas nas brumas do tempo, divagar sobre aquelas mais emergidas e retratar a devida importância de cada uma.

Como já é de costume, caminharemos ao encontro de várias bandas que em meio a sua proposta não alcançaram algum destaque, suas sonoridades completamente aquém de suas épocas, a precariedade, a falta de uma gravadora de peso, enfim, bandas que abusaram da sua criatividade, da sua loucura e criaram obras renegadas que nos ensinam muito, muito além da música, muito além de suas ideias… Seja uma realização pessoal, seja um momento na vida, seja lá o que for, fazer música pesada é algo que beira ao absurdo, ainda mais quando você não está adequado ao mercado ‘vigente’, e é exatamente isso que me fez perder o meu tempo em produzir essa matéria; a admiração, o respeito e o amor pela Música Maldita. Uma genuína expressão de marginalidade, de selvageria, de amor, de ódio, é a mais pura transgressão. Transgressão é algo que “está ficando fora de moda” na música pesada, hoje, nos deparamos com uma manada de carne, ossos e nervos que não aprenderam nada com as suas bandas preferidas, seus ídolos decadentes e corrompidos apontando uma nova era de retrocesso, isentos do sentimento intenso e visionário, do tesão que a música provoca, das inúmeras portas pro desconhecido de nós mesmos que elas abrem. Hoje, é tudo tão reto, tão mastigado, tão igual… talvez não teria como ser de outra forma, que se dane… a luta pelo resgate de impulsos mais ligados ao lado menos material de nossa existência continua, como vocês verão  neste 3º Ato.


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Iniciaremos este capítulo em Los Angeles, no ano de 1982. Um sujeito sob a alcunha de “The Mezmerit” cria um projeto que leva este nome, a proposta era executar um Metal de certa forma, melodioso, uma melodia obscura e infernal, uma dose de psicodelia… Tudo girando em torno da mente desse cara, ele convida uns manos para dar vida ao projeto. Em 1983 é lançado o seu 1º EP – The Innocent, the Forsaken, the Guilty contendo 4 faixas em quase 20 minutos. Neste material fica bem clara a proposta do cara, seu vocal, uma espécie de King Diamond infantil, sua sonoridade, lembrando algo de Mercyful Fate, um tanto próxima da do italiano Paul Chain, mesmo que seja bem provável que Mezmerit e Paul não tivessem contato algum, não trocassem figurinhas, coincidências que deixam a coisa ainda mais mágica.

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Em 1985, Mezmerit lança um EP em k7 de forma independente, agora como um trio, são 3 faixas, nas quais o Metal falou mais alto, a voz de Mezmerit deixa o lado King Diamond de lado. Após 4 anos, é lançada uma demo com 3 faixas instrumentais, era o fim de algo que não teve muita vida. Mas, no meio disso tudo, um fulano muito importante tocou bateria no projeto, Bill Ward, sem mais.

Em 2013 a história é trazida ao mundo dos vivos com uma compilação contendo os 2 EPs mais um DVD com uma entrevista com o Tommy Mezmercardo (Mezmerit), neste DVD ele comenta sobre toda a jornada do projeto, fala dos caras que passaram por ele, entre outras coisas que fizeram parte disso.


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Já que o nome Paul Chain fora pronunciado aqui, é dele que irei tratar agora. Paolo Catena nasceu em 1962 na pequena província de Pesaro – Itália, um guitarrista eloquente e curioso, organista e produtor musical, apenas isso já nos mostra a sua dedicação à música. Sua jornada na música pesada começa em 1977 quando ele se junta a Stefano Silvestri (Steve Sylvester), como o seu parça, ele assume uma forma americanizada do nome, por isso, Paul Chain, ou, Paulo Corrente para nós. Assim se dá início ao Death SS, uma banda com uma sonoridade peculiar que influenciaria não só o Metal mais rápido quanto o mais lento. Temas como perversidade, maldade humana, as peripécias de satanas, tudo aquilo voltado ao instinto mais amaldiçoado da nossa espécie. Em 1981, os Death SS lançam a sua 1ª demo –

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Death SS – 1982

Death SS trazia uma forte teatralidade no visual de seus componentes, suas letras, uma ode ao horror, sem dúvidas, foi a escola de Paul, em relação ao rumo que ele tomaria.

(evitando qualquer mal entendido, os 2 “s” significam Steve Sylvester)

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Paul Chain Violet Theatre

Paul deixa os Death SS em 1984 para se dedicar ao seu novo projeto – Paul Chain Violet Theatre, agora com uma pegada mais lenta, mantendo a teatralidade, com apresentações performáticas, uma mente preocupada com a magia da arte musicada, sua pira era tão torta, que, jamais escreveu uma letra, ou pelo menos, uma que se tem notícia, que se possa interpretar. Paul inventou a sua própria língua, a sua própria forma de cantar, traduzindo; ele não falava nada com nada, por certas vezes você entende alguma palavra que soe um inglês bizonho, parece ser um cara fanho também, os títulos das músicas pelo menos, eram específicos. O novo projeto inicia com um EP – Detaching From Satan com 4 faixas, lançado em 1984.

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O debut viria em 1986 – In the Darkness, no mesmo ano, mais um EP – Highway to Hell, este traria um som mais Heavy Metal, mais direto, sem as brisas fantasmagóricas, sem aquela atmosfera dark. Já em Opera 4th, o segundo full e último da banda, a genialidade maldita aflora uma vez mais, isso fica bem claro nesta faixa –

Meia hora de agonia intensa protagonizada por sintetizadores fabricados nas profundezas dos quintos dos infernos, parece até um tributo aos Jacula. Essa faixa longa é o lado A da bolacha, no B, parece surgir uma outra proposta, o Doom Metal com a sua marca.

Talvez, Paul, ainda não havia encontrado o que queria na música, então ele resolve reformular os PCVT para apenas Paul Chain. Um split (uma faixa de cada) com uma banda chamada Sabotage marca o início da nova empreitada, o ano era 1987. No ano seguinte é lançado o EP – Ash, com 5 faixas, ficava nítido o avanço na qualidade musical, o aprofundamento na estrutura obscura, na vontade de causar um misto de medo e vontade de agitar a cabeça, riffs sólidos em toneladas, um tormento da mais alta vontade de ser vitimado por ele.

O debut é lançado em 1989 – Life and Death, é simplesmente um marco na lentidão sonora, um disco cuja sua importância é indiscutível!

Ainda em 89, o 2º disco é lançado – Violet Art of Improvisation, como o título sugere… nem só de improvisação é feito este disco, Paul começa a explorar uma área mais experimental, começa a lidar com a parte esotérica do cristianismo, começa a bitolar a porra toda. Na real, Violet Art of Improvisation é um disco duplo, culpa da faixa “Tetri teschi in luce viola” e seus 31 minutos, uma música que te incomoda, te deixa num estado de transe pela batida repetitiva, te causa espasmos pelo uso mirabolante de sintetizadores, ou sei lá que diabo é aquilo, um órgão todo torto… ainda não contente, Paul cria mais uma faixa com 23 minutos…

É claro que a experimentação no 2º disco não iria cessar –

Acredito que exista o momento certo de apreciar essa obra, com a ajuda de substâncias psicoativas pode ter outro sentido, enfim, esse material é o que os hipsters chamam de ‘experiência musical’, sei lá, algo assim… Ainda no mesmo ano é lançado um single com 2 faixas onde tudo volta ao ‘normal’ –

O ápice da loucura de Paul seria atingido em 1990, com o lançamento do disco triplo – Opera Decima – The World of the End, sendo que dois discos são compostos por apenas 2 faixas cada, ambos com mais de 40 minutos, o terceiro, contando com 5 faixas.

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Em 1991, um certo abandono ao experimentalismo sonoro é notado em Whited Sepulchres, mesmo assim, é bem nítido as doses de anos 70 neste disco, além de ser um disco mais instrumental. Em 94, os sintetizadores retornam com tudo, bateria eletrônica, um violão acústico, a presença duma cantora, para produzir o 5º disco – Dies Irae, sem muitas informações sobre esse disco que parece ser raro.

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Chegamos em 1995 com o lançamento do Alkahest, um disco que contém algumas letras escritas por Lee Dorrian (Cathedral/With the Dead), ele acabou cantando essas letras nas músicas que Paul compôs. Alkahest é um retorno passageiro as origens, após esse disco, Paul cairia de vez de cabeça no mundo do improviso e experimentalismo, expandiria seus horizontes buscando notas de sonoridades ao entorno do mundo. Cerca de 50 pessoas passaram pelos seus projetos, hoje, não sei ao certo que fim levou o cara, procuro acreditar que ele ainda esteja fazendo música, seja lá qual for, o fato é, a sua genialidade jamais será esquecida, assim como a sua importância para a lentidão sonora.

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Paul e Lee Dorrian

Um cara que já não caminha no mundo dos vivos será lembrado aqui por ter cantado em algumas faixas dos discos Life and Death e In the Darkness, entre outras participações, inclusive nos Death SS (bem no começo da banda), ele se chamava Piero Gori – “Sanctis Ghoram“, faleceu em 2004 vitimado pelo câncer.

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In Memorian

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Zess

Continuando na Itália, tratarei agora de 4 bandas não tão aclamadas no submundo quanto o Paul Chain. Zess foi formada em 1987 por Mercy La Morgue (voz, synths) ele convida mais 4 caras, a banda acabou durando apenas um ano. Mercy monta outra banda com uma outra proposta sonora, ela se chama Malombra; uma mistura de Heavy Metal, música gótica e prog. Rock. Zess fora enterrado, até que em 2004 por intermédio do selo italiano Black Widow Rec., os restos mortais ganharam vida. Assim é lançada uma compilação intitulada Et In Arcadia Ego, uma gravação precária contendo 8 faixas foi cuidadosamente restaurada para tal feita ser realizada, o resultado ficou cabuloso. Zess bebia da fonte do NWOBHM, é bem provável que sofriam influências de Paul Chain, talvez, até dos Candlemass, em alguns momentos do disco, chegou a lembrar os suecos. A temática era baseada em contos de terror e ocultismo, reza a lenda que este material veio à superfície em função da procura por materiais do tipo, pelo boom que esse tipo de sonoridade vem sofrendo lá na Europa, obrigado Satan!

Primeiro disco dos Malombra

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Black Hole

A 2ª banda também joga no time das que só foram trazidas ao mundo dos vivos em função do boom dos anos 2000. Black Hole foi fundado por Robert Measles (bass, vocals e synths) e Paolo Verones (drums) em 1981. Foram 3 demos lançadas entre 83/84 até debutarem com o Land of Mystery, é outro disco do submundo que pode muito bem ser considerado indispensável aos que se aventuram a fazer Doom Metal em sua raiz. O inglês reto e macarrônico é um ponto interessante no disco, por vezes, engraçado. A sonoridade trazia elementos de prog Rock também, uma atmosfera sinistras, melodias soturnas, órgão muito bem encaixado, não faltam elementos para que os Black Hole figurem estre a essência da lerdice sonora. Suas letras abordavam o subconsciente humano, a parapsicologia, o ocultismo, entre demais assuntos esotéricos ou exotéricos.

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Demo de 1984

A banda grava mais 3 demos em 85 até se dispersarem, porém, Robert retorna em 87 para dar continuidade a jornada, ele convida um guitarrista chamado David McAllister e gravam um novo disco entre 88/89, Robert compõe e grava tudo mas o material não é lançado, isso só viria a acontecer uma década depois, quando um selo italiano chamado Andromeda Rec. resolve lançar o Living Master, um disco mais atmosférico (no sentido sombrio da palavra), a presença da bateria gritantemente eletrônica chega a incomodar, um recurso não tão bem usado, além do mais…

O disco ainda conta com 4 faixas bônus, fruto duma demo de 85. Em 2014, uma segunda versão do disco foi lançada via Jolly Roger Rec.. Em 2011 o selo chinês AreaDeath Prods. lança 500 cópias dum box contendo 3 discos com toda a obra dos Black Hole, selo corajoso. A banda encerrou as atividades no fim dos anos 80 e até o momento, permanece apenas na memória de poucos.

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Em 1987, um quinteto de Verona lança uma demo de com 5 faixas, uma sonoridade bem típica das bandas abordadas até o momento, um vocalista ensandecido, uma organista inspirada, uma guitarra cravada nos anos 70, ao mesmo tempo, sofrendo influências da NWOBHM, abordando temas como bruxaria e vudu, é isso que você encontra no único registro dos Sacrilege, o material foi mantido no limbo até ser remasterizado e lançado em 2013 via Jolly Roger Rec., agora, batizado como Demon Woman, o nome duma das faixas do play.

Em 1987, dois membros dos Sacrilege; Nicola Murari e Mauro Tollini fundam uma outra banda com uma proposta sonora parecida. Esta será a próxima banda a ser abordada.

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Mauro e Nicola chamam 2 caras para iniciar os trabalhos, lançam em 1990 sua 1ª demo – The Lord of Evil, contendo um intro mais 5 faixas.

Eles lançam mais duas demos entre os anos de 92/94, parecem ser materiais bem raros. Das 4 bandas apontadas aqui, apenas os Epitaph estão ativos, na real, após a 3ª demo, a banda encerrou suas atividade, até que em 2012, Mauro e Nicola retornam com 2 novos caras para dar continuidade ao conciliábulo. Em 2014 eles lançam o maravilhoso Crawling Out of the Crypt, o disco traz 6 novas versões de faixas das demos, duma faixa gravada em 1994 para uma compilação e uma inédita. Os caras seguem firmes e fortes na empreitada, realizando shows pela Europa, esse novo vocalista que eles encontraram é uma benção total, uma voz que caiu como uma luva na proposta sonora deles. Em abril deste ano, eles lançaram um split com os também italianos Abysmal Grief, um material com uma faixa de cada. Abaixo, uma faixa do debut, originalmente gravada em 92, na 2ª demo.

Mauro e Nicola foram responsáveis pelas bateria e guitarra (respectivamente) do debut do Black Hole, uma duplinha do barulho hein…

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Epitaph na atualidade

O 2º disco nasceu em setembro de 2017, seguindo a tradição.


Encerrando esse lado desconhecido da música lenta obscura italiana, desenrolarei um pouco da história duma banda cujo vocalista e fundador já foi citado lá no Paul Chain, isso mesmo, Lee Dorrian, além da música, Dorrian desenvolveu um papel muito importante com o seu selo Rise Above Rec., desenvolveu não, desenvolve.

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Cathedral inicia a sua jornada em Coventry – Inglaterra, quando Lee Dorrian dá o fora dos Napalm Death em 1989, Dorrian permaneceu na banda por 2 anos, gravando algumas faixas do aclamado Scum, e todas do From Enslavement to Obliteration. A partir daí, a dedicação de Dorrian seria voltada ao lado lerdo e obscuro da coisa. Apesar de perambular pelo movimento Punk, suas influências musicais eram voltadas aos anos 70, às bandas que misturavam psicodelia com algo sombrio, foi então que ele resolveu chamar 4 caras para dar início à feita, entre eles, um que o acompanharia até o fim da banda, o zica Gaz Jennings. Em 1990 sai a primeira demo, são 3 faixas mais um cover para a “All Your Sins” dos Death Row/Pentagram, que cover insano, mais desacelerado, torto, quase passa batido… É de lei salientar que nessa época, lá na Inglaterra, o som desacelerado estava passando por uma transição, Paradise Lost deu um pontapé inicial em 1988 com a suas demos – Morbid Existence e Paradise Lost, pegando aquilo que os Sabbath, Candlemass, Pentagram, Vitus, etc… fizeram, adicionando mais peso e uma boa dose de melancolia, melodias mais pra baixo, aquilo que supostamente começou em Born to Late dos Vitus, e depois no Epicus… dos Candlemass, começa a tomar uma outra forma, acredito que seja a transição de épocas, “a divisão de águas”. Em 1990 surgiriam outras duas bandas com seus materiais iniciais na praça, Anathema e My Dying Bride, bandas que dariam seguimento a essa nova forma de fazer música lenta, ambas inglesas.

Mesmo assim, na primeira demo – In Memorian, já temos pistas que os Cathedral não seguiriam a onda do meloso Death/Doom da época, seus riffs, de certa forma, traziam a ambientação do que foi feito nos anos 80, e do que é feito até hoje quando o assunto é Doom Metal tradicional. Mas, é possível dizer que a maior parte da demo seguia a onda da época, são apenas traços de épocas douradas. Outro fato que pode diferir os Cathedral da tríade “Doom” inglesa, é a (talvez) dificuldade de Dorrian em cantar de forma gutural, se nos Napalm Death ele berrava até o talo, na proposta de sua nova banda isso não se encaixaria, pois então, essa sua voz ‘sofrida’ ia contra a maré de suas conterrâneas, nelas, o gutural comandava tudo, com essas pistas, fica fácil imaginar que a coisa se desprenderia do seu primeiro galho, mas isso ainda levou um certo tempo…

Outro fato positivo que deve ser destacado é o forte investimento que a banda teve na parte audio-visual, são tantos clipes e vídeos ‘patrocinados’ pela MTV inglesa que contribuíram imensamente para o alcance da banda, claro, me refiro ao continente Europeu, nem me atreverei a entrar em detalhes da difícil relação desse tipo de som por aqui no Brasil porque isso renderia um livro.

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Forest of Equilibrium

Em 91, a banda lança sua segunda demo, no ano seguinte, participam duma pequena compilação com mais 3 bandas, Entombed, Carcass e Confessor, realizada pela revista alemã Rock Hard. A faixa que participante é a “Soul Sacrifice”, sua duração, atípicos 2:quase 3 minutos. Eles debutam no mesmo ano com Forest of Equilibrium, são 7 faixas que resumem bem o que foi escrito até aqui. Esse disco marcaria uma parceria duradoura com um artista gráfico; Dave Patchett, este cidadão passaria a assinar inúmeras capas de vários materiais lançado pela banda. Seu traçado desconectado da realidade calhou com as ideias de Dorrian, tudo girava em função de um mundo imerso na dualidade das coisas, um mundo se religião, sem bem e mal, provocativo, além de tratar duma sexualidade bizarra. A preocupação com a parte artística é outro ponto a se observar, nos clipes da banda, isso também teria peso.

Soul Sacrifice se tornaria título dum EP de 1992, que marcaria uma outra transição da banda,  a faixa foi modificada, trazendo os indícios da transição definitiva da banda, abandonando aquele lado mais triste do Death/Doom, Dorrian assume um vocal mais ‘limpo’, sofrem influências do Metal popular dos anos 90, algo mais porrada, moderno, além de influências do engatinhante Stoner Rock, ou seriam eles um dos cofundadores do estilo?

Em 1993, a banda lança 3 singles, entre eles, um se torna um clipe, Ride, creio eu que aqui, enfim, a transição é completada, os caras trajados como uma banda dos anos 70, era o começo do revival uahahahaha… menos na sonoridade, peso e doses duma psicodelia moderna, solos altamente metalizados, a voz de Dorrian também amadurece ao seu estado final, sua presença de palco muda também.

Se alguém (na época) duvidava da nova forma de fazer música dos caras, deixou de ter com o lançamento do The Ethereal Mirror em 1993, sem volta! Um som tão pesado e distante da sua época, conseguia atomizar os riffs filhos dos anos 70, trazia uma magia intensa do passado ainda não tão distante, tiravam onda sem dó nem piedade.

Oh yeah, uuuurrrr

Em “Midnight Mountain” temos a prova concreta de que os Cathedral foi a 1ª banda do revival, pode não ser tanto na pegada, mas na estética, é muito mais que várias bandas da atualidade. A genialidade por traz disso, é ter um som de base compatível para sua época e extrapolar em cima dele, algo que estava sendo esquecido, renovado, ou, trocado pelo novo.

Em 1994, um split (com 2 covers dos Sabbath) mais 2 EPs são lançados, Statik Majik e Cosmic Requiem, são EPs parecidos, lançados por gravadoras diferentes, Erache e Columbia, os 2 contém as inéditas “Hypnos 164′, e a longa e altamente brisada “The Voyage of the Homeless Sapien”, com mais de 20 minutos.

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Essa banda contém muita história, por isso, é melhor mudar o rumo da coisa. Deixarei aqui alguns video-clipes para após, dar um outro foco na abordagem…

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Com o tempo, a sonoridade foi sofrendo pequenas alterações, a pegada mais Stoner , mais sabbathica começou a falar mais alto, o obscurantismo expandiu seu leque ao abordar inúmeros temas sinistros ao redor do globo terrestre, mensagens abstratas, ideias distópicas, o lado esotérico da bíblia e assim por diante. Diferente das bandas que surgiram junto deles, ali, numa mesma faixa duma década, apesar de se distanciarem gritantemente do Death/Doom típico, os Cathedral não direcionaram o seu som para algo mais comercial, compatível com o mercado da época como suas conterrâneas, talvez porque o som dos caras era uma vibe que agradava americanos e europeus sem muito esforço, sei lá, só sei que essa “mancha” na jornada eles não comungam.

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Gravação do seu último clipe – Tower of Silence

No mesmo ano de criação dos Cathedral, Dorrian fundara um selo chamado Rise Above Rec., qual, por ele, lançou alguns EPs, comps. e o último disco da sua banda, o The Last Spire, de 2013. Esse selo foi o responsável por trazer ao mundo dos vivos, bandas como; Blood Ceremony, Church of Misery, Electric Wizard, Ghost, Orange Goblin, Lucifer, Witchcraft, entre várias outras bandas que tiveram os seus discos lançados pelo mesmo. Dorrian detém um peso duplicado na história desse tipo de som, por sua música e por sua correria em prol dele, um cara a ser respeitado.

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Cathedral encerra as atividades após o lançamento do último disco, mas, Dorrian já tinha em mente um outro projeto, ele o inicia em 2014 sob a alcunha de With the Dead, ele convida Tim Bagshaw (Serpentine Path, ex-Electric Wizard, ex-Ramesses) para assumir a guitarra e Mark Greening (Dead Witches, Ramesses, ex-Electric Wizard), com um puta time, as gravações se iniciam no ano seguinte, Tim também grava o baixo. O debut auto-intitulado é lançado em outubro de 2015, Mark grava e é ‘despedido’ da banda, não faço a mínima ideia do motivo, foi mais um pé na bunda doido, o primeiro foi dos Electric Wizard, mais precisamente, da Liz B., Dorrian convida 2 caras para assumirem os postos vagos, Tim passa a se dedicar apenas as 6 cordas, pro baixo; uma figura já conhecida por ter gravado com os Cathedral – Leo Smee.

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Formação atual

Se você espera ver algo de Cathedral nesse disco, pode esquecer, é um play ambientado no lado Electric Wizard da coisa, calma, não soa igual, um tanto similar, com sua própria identidade, Dorrian mete uns efeitos na voz, alias, a voz dele parece ter sofrido com o tempo, tá acabadão já o coitado. Gaz Jennings se juntou com uma galera belga e se tornou guitarrista da banda de Heavy/Doom Death Penalty, fronteada pela fodona Michelle Nocon, além dos belgas, outra ponte, uma galera alemã, a nova empreitada de outra mina fudida na paçoca, Johanna Sardonis, que se destacou com a sua finanda banda The Oath, os Lucifer. Deixarei aqui videos dessas bandas citadas, adianto que as tais serão abordadas numa outra ocasião, com mais detalhes, são a nova safra da Música Maldita.

Bandas que o Gaz toca –


Acho que a próxima banda a figurar aqui não poderia ser mais óbvia… exatamente! Electric Wizard. A raiz dos E.W. está entranhada no ano de 1988 em Wimborne – Inglaterra, quando Jus Oborn (guitarra/voz) resolve criar uma banda, para isso, ele chama 2 caras para assumirem o baixo e a bateria. Essa banda se chama Lord of Putrefaction, parece nome de banda  Grind, Death brutal, né? Não! Mas também não é possível dizer que estava próximo da musicalidade dos E.W.. LoP mandava um som similar ao que os Paradise Lost estavam fazendo naquele momento, mais uma pitada de Celtic Frost, confesso que é engraçado ouvir o som dessa banda após ter ouvido tanto Wizard, aquela voz ‘angelical’ do Jus perto daquele gutural tosco… Em 1989, a primeira praga ganha forma – Necromantic, alguma alma sebosa disponibilizou o bang no youtube, fica no ar a questão se o material era muito ruim ou se o material que o cara converteu tava todo fudido, só sei que é bem zuado –

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Lord of Putrefaction

Em 91 sai mais uma demo onde se nota uma certa diferença de rumo, essa mesma demo serviria para um split com uma banda inglesa chamada Mortal Remains, o material foi lançado em vinil.

Ainda em 1991, os caras decidem mudar o nome da banda para Thy Grief Eternal, dobram a guitarra e lançam uma demo de duas faixas no ano seguinte – …on Blackened Wings, a sonoridade sofre mais uma leve mudança, ficando bem similar ao Death/Doom da época, Jus parece ter aprendido a trabalhar o seu gutural (uahahaha).

Ainda em 92, mais uma vez os caras mudam o nome da banda, agora, apenas Eternal. Em julho, eles lançam uma demo ensaio e fica por isso mesmo, no ano seguinte, lançam a demo Lucifer’s Children, Jus abandona o vocal gutural e assume a sua voz normal, ou quase, ele dá uma forçada na coisa, a sonoridade busca algo mais sabbathico, a demo mostra mais cuidado com a gravação, não tem como não lembrar dos Cathedral também, uma influência praticamente direta, porém, Eternal mantinha um pé bem firme no Doom Metal. No final de 1993 a banda encerra as sua atividades e passa a ser o Mago Elétrico. Não faço absolutamente a mínima ideia do porquê dessa putaria de mudar de nome constantemente.

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Eternal

Electric Wizard não contaria com a presença de nenhum membro das 3 bandas “embrionárias”, sua formação inicial como um trio, traria sangue novo, 2 figuras ilustres; Tim Bagshaw no baixo e Mark Greening na bateria. Essa tríade maldita foi responsável pela gravação dos 4 primeiros discos da banda, Electric Wizard (1995), Come My Fanatics (1997), Dopethrone (2000) e Let Us Pray (2002). Wizard trouxe para o mundo do Stoner/Doom, ainda nada expressivo, outros temas, Se os Sleep vinham com um papo de viagem sob efeito da maconha, espiritualidade, temas bíblicos, good vibe, o caralho a 4, os Cathedral com um papo abstrato e baladeiro, o trio inglês buscava explorar o universo dos filmes da Hammer, os contos de HP Lovecraft, falavam de maconha de um modo não comum, suas letras expressavam ódio e descaso com a raça humana, fazem uso disso até hoje, chegaram ao cúmulo de usar uma arte dum demônio, sátiro, sei lá, com uma barba hipster, dando uma bola num bong na capa do Dopethrone, numa outra versão/relançamento de Come my Fanatics, uma foto trabalhada duma ‘missa’ com LaVey, samplers de diálogos de filmes de terror dos 70/80, ocultismo, satanismo de gibi, toda a maldade jogada num caldeirão e temperada com “ervas finas”.

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A formação dos “4 discos” – Tim, Jus e Mark
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CmF – 2ª versão

O debut da banda parece ser um play de outra banda caso você tenha se iniciado no som deles com um play mais recente (como foi o meu caso), é um disco Cathedral chupado, mais desacelerado, sabbathico, com algo de Sleep, é o disco mais Stoner da banda, o mais reto também. Quem assinou a capa foi o mesmo artista dos Cathedral, quem lançou o play foi o selo de Dorrian – Rise Above Rec..

Quando o Come… começa a rolar, já é outra banda de novo (uahahahaha), uma busca incansável por sua própria sonoridade após fazer por anos o que era feito por várias bandas, ainda não! Seboso, brisado, rústico, áspero, do inferno… enfim, o Mago encontra a sua própria sonoridade. Com o tempo, umas doses de psicodelia, efeitos e mais efeitos na voz de Jus, sinistrismo, relaxamento das tarraxas exacerbado, a marretação constante que se tornou uma marca registrada da banda.

Em Let us Pray, temos algo mais lapidado, mais preocupado com a nitidez do som, o macabrismo permanece inalterado, aliás, até hoje. A partir desse play que outros tipos de atmosferas começam a serem ‘testadas’, a afeição de Jus pelos efeitos surge mais criativa, o timbre de sua guitarra assume uma forma mais diferenciada do habitual.

Passaremos para a segunda fase dos Wizard, tida por muitos como a pior delas, a escassez da criatividade, o cover deles mesmos, não sei, não me atrevo a dar o meu pitaco nessa história, na minha mente, isso não importa.

Tim deixa a banda e em seu lugar é recrutado um novo baixista, Jus recruta uma mina para a guitarra base, ela já vinha fazendo um som numa pegada similar desde 1990 com uma banda chamada 13, essa mina se chama Liz Buckingham e passaria a ser a mandachuva do lar, Liz e Jus são casados.

Mark é ‘dispensado’ da banda, e a coisa começa a se metamorfosear em We Live, o 5º disco, lançado em 2004. A coisa fica mais massiva, a dobra de guitarras traz uma outra cara, um peso aterrador, um tanto ritualístico, maldito, atormentador, aquela sujeira nos riffs retorna, Jus uma vez mais dá uma diferenciada na sua voz.

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We Live lineup – Rob Al-Issa, Jus, Justin Greaves e Liz

Justin cede seu lugar à Shaun, assim, eles lançam o disco que me iniciou no som do Mago, Witchcult Today, no final de 2007. Jus e sua trupe resolvem fazer um passeio lá nos anos 70 e retirar o que lhes aprouvessem em busca duma nova sonoridade, e, puta que pariu, é aquela música pra você colocar no churrasco de família, pra você mostrar pro seu parente pivete pentelho, filho da puta que não para de encher o saco, vai ter pesadelos e se deusquiser, será um dos nossos (emotion sorriso). A partir desse disco, fica sacramentado o fim das experimentações, digamos, o que viria, seria, de certa forma, a mesma receita.

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Witchcult Today lineup – Saun (o carneiro) Rutter, Liz, Jus e Rob

Tire suas próprias conclusões com o Black Mass de 2010 –

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Black Mass lineup – Liz, Jus, Tas e Shaun

A coisa começa a feder após esse play, tretas e mais tretas com o selo Rise Above Rec., responsável por todos os full da banda até o momento, brigas judiciais, até o ridículo de não permitir que a banda tocasse suas músicas ao vivo, ainda vai piorar… Mark retorna aos Mago para gravar o Time to Death, o faz, e logo em seguida é chutado da banda, o disco é lançado sem a sua permissão de uso da sua produção, o que gera mais treta, mais briga judicial. Jus cria um selo fictício, na real 2, o primeiro – Satyr IX Prod., lança uma segunda versão do EP Legalize Drugs and Murder em k7, o ‘selo’ Witchfinder Rec. lança o último full. Vem bem a calhar uma banda que retrata a miséria humana, a desgraça de nós mesmos, a superficialidade dos atos, das coisas, o apreço ao maldito, parece até que levam a sério, ou seriam vítimas do acaso, de si mesmos? Que seja de tudo um pouco, o fato é, é sempre uma experiência horripilante ouvir essa banda, por que ouvimos? Porque somos absolutamente como eles, mesmo que fingimos descaradamente não ser!

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Time to Die lineup

Os Wizard não investiram em produção audio-visual durante a maior parte de sua jornada, há uma porrada de videos d’algumas músicas feitos por seus apreciadores, trazendo cortes de filmes dos 70/80, com as temáticas abordadas pela banda. Até que no final de 2014 eles descabaçam nessa feita com o “SadioWitch”, uma faixa do seu último full. Sem mais.

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formação atual

Em novembro de 2017, o 10º disco ganha vida, um título tipicamente apelativo – Wizard Bloody Wizard, composto por 6 faixas duma sonoridade que desagradará ainda mais aqueles que apreciavam o lado mais seboso da banda. A sonoridade mergulha ainda mais na onda vintage, mais macio do que nunca, uma capa que pode causar mais polêmica pra banda, ao que tudo indica, eles estão cagando pra tudo, aliás, continuam cagando.


Ainda temos muita coisa a explorar nessa transição 80/90, vai ficar para o Ato IV, a coisa ficou um tanto extensa e isso não é legal. Até a próxima.


 

Que Coffin Joe vos abençoe – .:G.Z/SUD:.

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2 comentários sobre “Ocultismo, exoterismo, satanismo, filmes de terror. O lado obscuro da Música Lenta. Ato III – O leque se abre e a bruxa lança sua praga (80/90)

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